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1 desenho de 8 notas, 35 compassos de Bach

O Prelúdio em dó maior troca só o acorde por baixo. Decore o padrão de um compasso e a mão leva o resto.

Diagrama do teclado com o arpejo de dó do primeiro compasso do Prelúdio de Bach: dó grave segurado, mi, sol, dó e mi marcados

Dó grave segurado sob o arpejo

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O ventilador do quarto girava devagar, e o som das teclas leves do teclado elétrico saía fino pelos alto-falantes de plástico. Na estante, a partitura tinha duas páginas cobertas de bolinhas pretas, tantas que a folha parecia acinzentada de longe.

Era a Música do Domingo, a peça mais conhecida do repertório de iniciante que soa difícil sem ser. O olho batia nas duas páginas e recuava. Pareciam centenas de notas diferentes para decorar, uma a uma, numa ordem que o cérebro não ia segurar.

A primeira reação foi contar. Trinta e cinco compassos, e em cada um, uma fila de semicolcheias (as notas curtas, de quatro por tempo) subindo e descendo pela pauta. Dava vontade de fechar a partitura e voltar para a música de três acordes.

Só que, olhando com calma, a primeira linha mostrava um detalhe curioso. O segundo compasso tinha a mesma forma do primeiro. O terceiro também. As bolinhas mudavam de altura, mas o desenho que elas faziam na pauta era sempre igual: duas notas embaixo, três em cima, e as três de cima repetidas.

A peça inteira funciona assim. Cada compasso pega um acorde, abre ele em notas soltas numa ordem fixa e toca essa ordem duas vezes. No compasso seguinte, o acorde troca, e a ordem continua idêntica.

Quem decora um compasso, portanto, decora o movimento da mão para a peça toda. O que muda depois é só o endereço: quais teclas formam o acorde daquele compasso.

As duas páginas cinzentas viram uma lista de 35 acordes, e a mão já sabe o que fazer com cada um deles. A dificuldade sai da memória e vai para a leitura do acorde, que é uma tarefa bem menor.

A lição de hoje desmonta o primeiro compasso nota por nota, mostra o erro que faz o desenho se desfazer no meio e coloca a mão esquerda no lugar certo para segurar o grave.

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I  A Lição de Hoje

As 8 notas que se repetem

A peça é o Prelúdio em dó maior, BWV 846, de Johann Sebastian Bach. A sigla BWV (o catálogo oficial das obras de Bach, organizado por Wolfgang Schmieder em 1950) dá o número 846 justamente por ela abrir a coleção O Cravo Bem Temperado, que Bach terminou em 1722.

Bach escreveu o prelúdio como exercício. Uma versão mais curta aparece no caderno de estudos que ele montou para o filho mais velho, Wilhelm Friedemann Bach, por volta de 1720. Por ter nascido como peça de aula, o desenho repetido foi pensado para a mão aprender um gesto só.

O gesto é um arpejo (o acorde tocado nota por nota, de baixo para cima, em vez de todas juntas). No original, o primeiro compasso toca dó, mi, sol, dó e mi, do grave para o agudo.

Hoje a lição desce o trecho agudo uma oitava, para caber na região do meio do teclado. As cinco notas ficam: dó três, mi três, sol três, dó quatro (o dó central) e mi quatro.

A ordem dentro do compasso tem duas metades iguais. Cada metade começa pelo dó três, sobe para o mi três e depois toca sol três, dó quatro e mi quatro, repetindo esse trio. São oito notas por metade, dezesseis no compasso.

O compasso inteiro cabe numa frase: duas notas graves que ficam, um trio agudo que se repete, tudo duas vezes. Quem guarda essa frase guarda os 35 compassos.

O detalhe que faz o som ficar cheio está nas duas primeiras notas. Na partitura de Bach, o dó e o mi graves não são soltos depois de tocados: eles continuam soando, segurados pelos dedos, enquanto o trio de cima corre.

Para fixar o desenho, faça o primeiro compasso em três tarefas.

Passo 1: toque só o trio de cima, sol, dó e mi, duas vezes seguidas, e repita até a mão fazer sem olhar.

Passo 2: acrescente o dó e o mi graves antes do trio e mantenha os dois afundados até o trio terminar.

Passo 3: toque a metade completa duas vezes, sem parar entre elas, e conte oito notas em cada uma.

Com o primeiro compasso na mão, o segundo já está aprendido pela metade. Nele, Bach troca o acorde para ré menor com dó no baixo, e as notas viram dó, ré, lá, ré e fá, na mesma ordem de sempre.

 
 

II  O Erro que Trava

O dedo que procura a tecla

O erro que trava aparece por volta do quarto compasso. O aluno decorou o primeiro como sequência de teclas, não como desenho, e quando o acorde muda a mão para no ar procurando a próxima nota.

A pausa é curta, mas quebra o fluxo. O Prelúdio de Bach vive de semicolcheias seguidas, sem respiro, e qualquer hesitação soa como um buraco no tecido da música.

A causa é a forma de memorizar. Decorar dó, mi, sol, dó, mi como uma lista de nomes obriga o cérebro a montar uma lista nova a cada compasso. São 35 listas, e nenhuma memória de iniciante segura todas.

Um segundo erro é soltar as notas graves. O aluno toca o dó e o mi e tira os dedos, porque está preocupado com o trio de cima. O resultado é um som magro, sem o chão do acorde, e a peça perde o efeito de onda.

Existe ainda o erro do dedilhado (a escolha de qual dedo aperta qual tecla) trocado. Quem usa um dedo diferente em cada compasso obriga a mão a recalcular a posição o tempo todo.

O desenho se decora pela forma da mão, não pelo nome das notas: os dedos ficam sempre na mesma ordem, e só a abertura entre eles muda de um acorde para outro.

Na prática, pense nos cinco dedos como cinco pontos fixos. O primeiro e o segundo tocam as notas graves. O terceiro, o quarto e o quinto tocam o trio. Quando o acorde troca, a mão abre ou fecha um pouco, mas a ordem dos dedos é a mesma.

O ajuste também resolve o problema das notas soltas. Se cada dedo tem o seu lugar fixo, o polegar e o indicador podem ficar afundados sem atrapalhar o resto da mão.

Correção 1: antes de tocar um compasso novo, apoie os cinco dedos nas cinco teclas do acorde, sem apertar, e só depois comece.

Correção 2: mantenha o polegar e o indicador afundados até a metade terminar, mesmo que o som pareça embolar no começo.

Correção 3: use sempre os dedos 1, 2, 3, 4 e 5 na ordem das notas, do grave para o agudo, em todos os compassos.

Com a mão moldada antes de tocar, a troca de acorde vira uma mudança de formato, e o dedo para de procurar tecla no meio do compasso.

 

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III  A Mão Esquerda

O dó grave que segura tudo

No original de Bach, as duas notas graves de cada compasso são da mão esquerda. Ela toca a primeira, e a segunda é dividida entre as mãos conforme a edição da partitura. Na versão desta lição, a mão esquerda fica com o dó três, a nota mais grave do compasso.

Pouse o polegar esquerdo, dedo 1, no dó três. A mão direita fica com mi três, sol três, dó quatro e mi quatro, com os dedos 1, 2, 3 e 5.

A divisão deixa cada mão com uma tarefa simples. A esquerda toca uma tecla no começo de cada metade e segura. A direita faz o desenho que se repete.

O tempo da esquerda é a parte que mais engana. O dó entra na primeira semicolcheia da metade, e o dedo fica afundado pelas oito notas. Na segunda metade, a esquerda toca o dó outra vez e segura até a barra.

A esquerda marca o começo de cada metade e não se mexe enquanto a direita corre: duas notas por compasso, sempre no mesmo lugar do desenho.

Nos compassos seguintes, a nota grave muda junto com o acorde, mas a regra continua. No segundo compasso, o grave ainda é dó. No terceiro, desce para o si dois, e o acorde vira sol com sétima.

A mudança do grave é o que dá à peça a sensação de caminhar. A direita repete o gesto de sempre, e a esquerda vai descendo e subindo devagar, nota a nota, guiando a harmonia.

O compositor francês Charles Gounod percebeu essa força em 1853. Ele escreveu uma melodia por cima do prelúdio, sem mudar nenhuma nota de Bach, e a peça ficou conhecida como Ave Maria de Bach e Gounod.

Para treinar a divisão, siga três tempos.

Tempo 1: metrônomo a 60, cada batida valendo duas semicolcheias, e só a esquerda tocando o dó nas duas metades.

Tempo 2: as duas mãos juntas no primeiro compasso, com o dó afundado pelas oito notas de cada metade.

Tempo 3: toque o primeiro compasso quatro vezes seguidas, sem pausa, e suba para 72 quando sair limpo.

“Em qual nota da metade a sua mão parou para pensar?”

Teste hoje: grave com o celular o primeiro compasso tocado quatro vezes seguidas. Ouça e conte as hesitações, os instantes em que uma nota chegou atrasada. O esperado é zero em 64 notas; três ou mais indicam que a mão ainda decora nomes, e o desenho precisa de mais cinco minutos com os dedos apoiados antes de tocar.

 
 

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