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3 notas graves andando sob a melodia parada

Dó, mi e sol na mão esquerda, uma por tempo, enquanto a direita segura a melodia e o andamento não escapa.

Teclado com dó, mi e sol graves e o mi da melodia em sombra

Dó, mi e sol embaixo, mi parado em cima

▼
 

O metrônomo estala seco na estante, sessenta vezes por minuto, e o mi da mão direita continua soando, com o dedo apoiado no fundo da tecla. Embaixo, a mão esquerda começa a andar: dó, mi, sol.

Nos dois primeiros compassos, os estalos e as notas graves caem juntos. No terceiro, o sol chega um fio antes do clique. No quinto, a mão esquerda já está meio tempo adiantada, e a melodia, parada lá em cima, parece atrasada sem ter mexido um dedo.

Esse descompasso tem explicação mecânica. As três notas do acorde de dó maior ficam perto umas das outras no teclado, e a mão cobre a distância antes do tempo pedido pelo relógio. O grave puxa, e o resto da música vai junto.

Quem estuda sozinho raramente percebe. Sem metrônomo, o andamento (a velocidade da música, contada em batidas por minuto) acelera aos poucos, e o ouvido aceita cada passo como normal. Só a gravação, ou o clique, mostra a corrida.

A mão esquerda, no teclado, tem um trabalho diferente da direita. A direita canta a melodia, a parte da música assobiada no chuveiro. A esquerda faz o chão: marca o tempo, dá a harmonia e segura o ritmo para a outra mão andar tranquila por cima.

Um acompanhamento firme faz a música soar inteira mesmo com uma melodia de duas notas. Um acompanhamento apressado estraga a música mais bonita, porque o ouvinte sente o chão andando antes de perceber qualquer nota errada.

A lição de hoje treina o chão. A mão direita fica parada num mi, como uma nota longa de canção. A esquerda toca dó, mi e sol graves, uma nota por tempo, de baixo pra cima, num compasso de três tempos.

O exercício parece pequeno e ensina a parte mais difícil de tocar com as duas mãos: cada uma no seu ritmo, sem uma arrastar a outra. O caminho começa por entender por qual razão o acompanhamento em notas soltas existe e como ele se organiza no compasso.

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I  A Lição de Hoje

Um acorde que anda em três tempos

Tocar as notas de um acorde uma depois da outra se chama arpejo (do italiano arpeggio, tocar como uma harpa). Na harpa, o músico raramente belisca todas as cordas juntas; ele passa os dedos por elas em sequência, e o acorde aparece aos poucos.

No teclado, o arpejo na mão esquerda virou o acompanhamento mais comum da música para piano. O nome mais famoso ligado a ele é o de Domenico Alberti, cravista veneziano do começo do século 18. As sonatas dele, impressas em Londres pelo editor John Walsh em 1748, usam a mão esquerda em notas soltas de um acorde, sem parar, sob a melodia.

O desenho de Alberti tem quatro notas e vai e volta: dó, sol, mi, sol. Ele ficou tão associado ao compositor que ganhou o apelido de baixo de Alberti, usado até hoje nos livros de harmonia. Mozart e o jovem Beethoven escreveram páginas inteiras com ele.

O arpejo de hoje é a versão mais simples: três notas, sempre subindo, uma por tempo. Dó, mi e sol ficam na oitava abaixo do dó central, a região grave onde a mão esquerda mora.

Três notas pedem um compasso de três tempos, o compasso ternário (a divisão da música em grupos de três batidas, a mesma da valsa). O dó cai no primeiro tempo, o tempo forte. O mi cai no segundo. O sol cai no terceiro. Depois o dó volta e o ciclo recomeça.

Essa coincidência entre número de notas e número de tempos tem uma vantagem: o dó grave sempre coincide com o tempo forte. O ouvido sente o começo de cada compasso pela nota mais grave, e a mão esquerda passa a marcar o compasso sozinha.

Em cima, a direita segura o mi acima do dó central durante o compasso inteiro, três tempos sem soltar. A melodia parada serve de referência para o ouvido: uma nota longa e imóvel deixa qualquer pressa da esquerda à mostra.

A esquerda toca o acorde nota a nota, e o dó grave cai sempre no primeiro tempo do compasso.

1. Ligar o metrônomo em 60 batidas por minuto, uma batida por segundo.

2. Mão direita: apoiar o dedo no mi acima do dó central e segurar a tecla no fundo.

3. Mão esquerda: tocar dó, mi e sol graves, uma nota a cada clique, contando um, dois, três.

4. Repetir oito compassos sem parar, com o dó sempre no clique do um.

5. No quinto compasso, conferir se o mi da direita ainda está soando e se a esquerda não ganhou velocidade.

O passo cinco é o termômetro do exercício. O mi longo some aos poucos no piano digital, como no acústico, e essa queda natural do som ajuda a ouvir o grave com mais clareza nos últimos tempos.

 
 

II  O Erro que Trava

A mão grave que corre

O erro que trava esse exercício é a mão esquerda ganhar velocidade sem pedir licença. O metrônomo segue em 60, e a mão termina o oitavo compasso tocando como se ele estivesse em 70.

Três causas se juntam. A primeira é o desenho subindo. Notas que sobem dão ao ouvido a sensação de chegada, e a mão quer chegar logo ao sol, a nota mais aguda do arpejo.

A segunda causa é a distância curta. Do dó ao sol cabem cinco teclas brancas, e a mão cobre esse espaço sem esticar. Com tão pouco caminho, o dedo pousa na tecla seguinte antes da hora, porque nada no corpo pede espera.

A terceira causa está na direita. A melodia parada não dá nenhum ponto de apoio rítmico. Quando as duas mãos tocam notas no mesmo tempo, uma corrige a outra. Com a direita imóvel, só o clique segura a esquerda, e o clique perde para o impulso da mão.

O resultado aparece em dois sintomas. O sol do terceiro tempo encurta, porque a mão sai dele correndo para o dó seguinte. E o dó do primeiro tempo chega antes do clique, rompendo o compasso. Somados, os dois sintomas tiram do ciclo uma fração de tempo a cada volta, e a soma das frações vira a corrida ouvida no quinto compasso.

O tempo três dura o mesmo do tempo um: a mão espera no sol até o clique chegar.

A correção começa pela contagem. Contar um, dois, três baixinho, com a boca, junto com cada nota grave. A voz guarda um ritmo mais firme que o do braço, e a mão tende a seguir a voz.

Depois vem o peso. O dó do tempo forte desce um pouco mais forte, e o mi e o sol descem mais leves. A diferença marca o começo de cada ciclo, e a mão passa a esperar o próximo tempo forte em lugar de correr até ele.

A terceira parte da correção é a espera no sol. O dedo fica no fundo da tecla até o clique do um, e só então sai para o dó. Soltar o sol junto com o clique, nunca antes, mantém a nota com a duração inteira.

Se a pressa continuar, a solução é descer o metrônomo para 50 batidas por minuto e subir de cinco em cinco só quando quatro gravações seguidas saírem no tempo. A velocidade cresce depois da firmeza, nunca no lugar dela.

 

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III  A Mão Esquerda

O chão embaixo da nota longa

Com o arpejo estável, a mão esquerda começa a trabalhar sem atenção constante. Músicos chamam essa fase de independência das mãos: cada mão segue o seu desenho, e a cabeça acompanha as duas sem comandar nota por nota.

A posição ajuda. A mão esquerda fica com o mínimo no dó grave e a mão inteira apoiada sobre as cinco teclas brancas até o sol. Nenhum dedo precisa esticar nem pular, e o pulso fica parado, baixo, na altura das teclas.

O polegar esquerdo, quando toca o sol, fica a poucas teclas do mi da direita. Essa proximidade cria um risco: a mão esquerda encostar na direita e o som do grave invadir a melodia. Basta afastar o cotovelo esquerdo alguns centímetros do corpo para abrir espaço.

O volume também se divide. A melodia canta acima do acompanhamento, e a esquerda toca mais baixo. No teclado com sensibilidade ao toque, a direita desce o mi com mais velocidade, e a esquerda desce as três notas devagar, quase encostando.

Quando o equilíbrio aparece, a direita pode ganhar uma segunda nota. A melodia troca o mi pelo ré só no primeiro tempo de um compasso, junto com o dó grave, e segura o ré pelos três tempos. A esquerda segue igual, sem perceber a mudança.

A melodia só muda de nota no tempo forte, junto com o dó grave; nos tempos dois e três, ela espera.

Esse encaixe treina o reflexo que sustenta qualquer canção acompanhada: as duas mãos combinam no tempo um e trabalham separadas nos outros. A direita aprende a confiar no chão, e a esquerda aprende a não reagir quando a direita se mexe.

Teste hoje: ligue o metrônomo em 60, grave oito compassos do exercício com o mi parado na direita e ouça a gravação contando os cliques. Anote em quantos compassos o dó grave caiu junto com o clique do um. O resultado esperado, no primeiro dia, fica entre cinco e oito de oito; abaixo de cinco, desça para 50 batidas e grave de novo.

 
 
 

Quiz da edição

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