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4 tempos contados antes da primeira tecla

Um compasso inteiro em voz alta, no andamento da música, põe a mão no passo certo antes do primeiro som.

Teclado com mi, fá, sol e ré da Ode à Alegria e o dó grave em sombra

Mi, mi, fá, sol depois de um, dois, três, quatro

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O banco range quando o corpo se ajeita, e o dedo médio da mão direita já está pousado no mi, frio contra o plástico da tecla. A partitura da Ode à Alegria, de Ludwig van Beethoven, está aberta na estante.

A mão desce. O primeiro mi sai rápido, o segundo vem colado, e na quinta nota a música já corre num passo que a pessoa não escolheu. No fá seguinte o dedo hesita, o compasso se desmancha, e a frase para no meio.

Ninguém errou nota. Todas as teclas certas foram apertadas na ordem certa. O tropeço veio antes do som, no meio segundo em que a mão decidiu sozinha a velocidade da música. Ela sabia o caminho das teclas; faltou combinar o passo.

A mão que entra sem contagem escolhe o andamento (a velocidade da pulsação da música) pelo estado do corpo naquele instante. Ansiosa, ela corre. Cansada, ela arrasta. Em nenhum dos dois casos ela consulta a música.

Os músicos de banda resolveram o problema com um gesto simples: alguém conta um compasso inteiro em voz alta antes da primeira nota. Um, dois, três, quatro. Quando o quatro termina, todos já sabem a que velocidade a música anda, e o primeiro som cai no lugar.

Quem estuda sozinho em casa pula essa parte, porque ela parece servir só a grupos. Sem baterista e sem ninguém para acompanhar, contar para quem? Para a própria mão. A contagem é o único colega que o estudante solitário tem na sala.

O hábito custa uns três segundos por início de peça e muda a primeira frase inteira. Ele vale para a peça de hoje, para a da semana seguinte e para qualquer música que a mão ainda vai aprender.

A primeira seção mostra como contar o compasso, em que velocidade e com que voz.

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I  A Lição de Hoje

Um compasso inteiro em voz alta

A contagem de entrada tem forma fixa. Para uma música em quatro tempos por compasso, como a Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Ludwig van Beethoven, estreada em Viena em 7 de maio de 1824, a pessoa diz em voz alta “um, dois, três, quatro”, no ritmo exato em que a melodia vai andar. A primeira tecla cai no “um” seguinte, sem pausa e sem pressa.

O compasso (o grupo de tempos que se repete do começo ao fim da música) é a unidade da contagem. Contar só dois tempos não basta: a mão ouve o começo do pulso, mas ainda não sentiu o ciclo fechar. Com quatro, o corpo percorre o compasso inteiro uma vez e reconhece quando ele recomeça.

A velocidade da contagem é a da música, nunca a da vontade. Se a partitura traz uma marcação de metrônomo, como semínima igual a 80 (oitenta batidas da nota de um tempo por minuto), a contagem segue esse número. Se não traz, a pessoa cantarola a primeira frase na cabeça e conta no passo em que a frase soa bem.

A marcação em números tem história curta. Johann Nepomuk Maelzel patenteou o metrônomo mecânico em 1815, e Beethoven publicou em 1817 as marcações de andamento das suas oito primeiras sinfonias, uma das primeiras vezes em que um compositor fixou a velocidade da obra em batidas por minuto.

A voz alta pesa no método. Contar só de cabeça deixa a contagem acelerar junto com a ansiedade, sem testemunha. Dita em voz alta, ela vira som, e o ouvido pega a pressa na hora em que ela aparece: o “três” chega antes do esperado e a pessoa percebe.

1. Escolher o andamento: cantarolar a primeira frase em silêncio e marcar o passo com o pé.

2. Dizer “um, dois, três, quatro” em voz alta, um número por batida do pé.

3. Apertar a primeira tecla no “um” do compasso seguinte, sem respirar entre o quatro e a nota.

4. Repetir a contagem toda vez que a peça recomeçar, mesmo depois de um erro no meio.

Quatro tempos ditos em voz alta decidem a velocidade da peça antes da primeira tecla soar.

O passo quatro forma o hábito. Depois de um tropeço, a tendência é voltar ao começo e atacar a primeira nota na pressa da frustração. A contagem nesse momento desfaz a pressa e devolve a peça ao andamento combinado.

Na Ode à Alegria, a mão direita começa com o dedo 3 no mi e toca mi, mi, fá, sol, sol, fá, mi, ré, uma nota por tempo. Cada grupo de quatro notas preenche um compasso inteiro. A contagem de entrada tem exatamente o tamanho de cada grupo, então a mão já entra sabendo quanto dura cada nota.

 
 

II  O Erro que Trava

A mão que escolhe o passo sozinha

O erro mais comum de quem estuda sozinho é entrar sem pulsação (a batida regular que sustenta a música). A mão ataca a primeira nota assim que os olhos acham a tecla, e a velocidade da peça nasce desse ataque, sem plano.

O problema aparece três ou quatro notas depois. A primeira frase da peça costuma ser a mais conhecida, a mão sabe tocá-la depressa e corre. Na segunda frase, menos treinada, os dedos não acompanham o passo que eles mesmos inventaram, e a música trava.

O tropeço engana porque parece falha de memória ou de dedo. A pessoa volta ao trecho, repete a nota onde travou, e o erro persiste, porque a causa estava no começo: o andamento escolhido não cabia na parte mais difícil da peça.

Os pedagogos do ritmo trataram o problema pelo corpo antes do dedo. O suíço Émile Jaques-Dalcroze, professor do Conservatório de Genebra, criou no começo do século XX a eurritmia (um método de aprender ritmo com o movimento do corpo inteiro). O livro dele, O Ritmo, a Música e a Educação, de 1920, defende sentir a pulsação no corpo antes de tocá-la no instrumento.

A contagem em voz alta é a versão de bolso da proposta de Dalcroze. Ela põe a pulsação na voz e no pé antes de a mão encostar na tecla. O primeiro som deixa de ser o ponto de partida e vira a continuação de um movimento que já estava rodando.

O andamento nasce na contagem, nunca no primeiro ataque: a mão só obedece a um passo que já existe.

Há uma segunda versão do mesmo erro, mais discreta. A pessoa conta, mas conta rápido, no ritmo da pressa de começar, e depois toca devagar. A contagem perde o sentido, porque a mão entra num passo diferente do anunciado. A conferência é ouvir se o primeiro mi cai à mesma distância do “quatro” que separava cada número contado.

A terceira versão aparece com o metrônomo ligado. O aparelho bate, e a pessoa começa a tocar em qualquer batida, às vezes no meio de um tempo. Sem contar o compasso de entrada junto com o clique, a primeira nota cai fora dele, e a frase inteira fica meio tempo deslocada.

A correção serve aos três casos: ligar o metrônomo ou bater o pé, ouvir dois cliques em silêncio, contar o compasso inteiro em voz alta junto com os cliques e só então tocar.

 

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III  A Mão Esquerda

A esquerda marca o quatro

A mão esquerda tem papel próprio na contagem. Enquanto a voz diz “um, dois, três, quatro”, a esquerda bate de leve na tampa do teclado, ao lado das teclas graves, uma batida por número. O corpo inteiro entra na pulsação antes do primeiro som.

Quando a música começa, a esquerda troca a tampa pela tecla. Na Ode à Alegria, ela segura o dó grave, uma oitava abaixo do dó central, com o dedo 5, e repete a nota no primeiro tempo de cada compasso. É a mesma batida da contagem, agora com som.

O ganho é a continuidade. A esquerda contou o “um” na tampa e toca o próximo “um” na tecla, sem interrupção. A direita encontra a pulsação já montada e só precisa encaixar a melodia por cima.

Para quem ainda não toca as duas mãos juntas, o exercício se divide. Primeiro a esquerda sozinha: contagem em voz alta e dó grave em cada “um”, durante quatro compassos. Depois a direita sozinha, com a mesma contagem. Só então as duas.

A batida da esquerda na tampa vira a nota grave do primeiro tempo: contagem e música são a mesma pulsação.

1. Contar “um, dois, três, quatro” em voz alta, batendo a ponta dos dedos da esquerda na tampa a cada número.

2. No “um” seguinte, dedo 5 da esquerda no dó grave e dedo 3 da direita no mi.

3. A direita segue mi, mi, fá, sol, sol, fá, mi, ré; a esquerda repete o dó grave a cada quatro tempos.

4. Manter a contagem em voz baixa durante os dois primeiros compassos tocados.

O quarto passo ajuda nas primeiras semanas. Contar enquanto toca mostra se a mão segue o andamento combinado. Quando a voz e a mão começam a se separar, a contagem denuncia o desvio antes do ouvido.

Com o tempo, a contagem encurta: a voz baixa, a batida na tampa some, e o compasso de entrada vira um gesto interno. O hábito de partida continua: nenhuma peça começa antes de um compasso inteiro passar.

Teste hoje: grave no celular duas entradas da Ode à Alegria, a primeira sem contagem e a segunda com “um, dois, três, quatro” em voz alta antes do primeiro mi. Ouça as duas e marque em que nota cada versão tropeça; com a contagem, as oito notas da frase têm que sair inteiras, no mesmo passo do começo ao fim.

 
 
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