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4 trocas de acorde sem tirar a mão do teclado

Dó, fá e sol trocam de lugar quatro vezes, e os dedos fazem a viagem encostados nas teclas, sem subir para o ar.

Diagrama do teclado com os acordes de dó, fá e sol na mão direita e os graves dó, fá e sol na esquerda

Três acordes, dedos sempre no plástico

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O plástico das teclas dava um estalo seco cada vez que a mão voltava do ar e batia nelas sem mirar. Três batidas, três estalos, e entre eles um silêncio curto onde a música deveria continuar.

O exercício era simples no papel: dó maior, fá maior, dó maior, sol maior e dó outra vez. Quatro trocas de acorde (três teclas apertadas juntas) numa sequência que aparece em cantiga de roda, em hino de igreja e em quase toda canção que cabe num violão de fogueira.

A mão sabia cada formato. Tocava o dó sem erro, tocava o fá sem erro. O tropeço morava no intervalo, naquele meio segundo em que os dedos subiam alguns centímetros, pairavam e desciam procurando as teclas.

Quem olha de fora vê um gesto natural. Levantar a mão parece abrir caminho, como tirar o copo da mesa para passar o pano. No teclado, o efeito é o contrário: a mão que sobe perde o contato com o mapa.

As teclas brancas são lisas e iguais entre si. Quem diz aos dedos onde eles estão é o tato: a borda da tecla vizinha, o degrau da tecla preta, o frio do plástico sob a ponta do dedo. No ar, nenhuma dessas pistas existe.

Por essa razão o olho desce. O aluno abaixa a cabeça, confere, acha o fá, e a batida já passou. O acorde entra atrasado, e o compasso seguinte começa com pressa para compensar.

A saída é física e cabe em dez minutos de treino. Os dedos podem fazer a viagem inteira encostados na superfície das teclas, deslizando de um acorde para o próximo como quem passa a mão numa mesa no escuro.

A lição de hoje monta as quatro trocas com os dedos rentes, mostra por que a mão que sobe se perde e coloca a esquerda marcando o grave de cada acorde.

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I  A Lição de Hoje

Rente do dó ao fá

A sequência de hoje usa três acordes da tonalidade de dó maior. Na teoria, o dó é a tônica (o acorde de casa, onde a música descansa), o fá é a subdominante (o acorde que se afasta da casa) e o sol é a dominante (o acorde que pede a volta).

Para a mão direita ficar perto das teclas, cada acorde aparece numa arrumação própria das três notas. O dó vem como dó quatro, mi quatro e sol quatro, com o dó central no polegar.

O fá vem como lá três, dó quatro e fá quatro. O sol vem como si três, ré quatro e sol quatro. Nenhum dos três sai da região do dó central, e nenhuma nota fica a mais de duas teclas brancas da nota equivalente no acorde vizinho.

A arrumação já vem pronta. O assunto da lição é a altura da mão: a distância entre a ponta do dedo e o plástico durante a viagem de um acorde ao outro.

O dedilhado fica assim. No dó, polegar (dedo 1), médio (dedo 3) e mínimo (dedo 5). No fá e no sol, polegar, indicador (dedo 2) e mínimo.

Soltar e levantar são gestos separados. Soltar é deixar a tecla voltar para cima com o dedo ainda apoiado nela. Levantar é tirar o dedo da tecla. Na troca, a mão só solta.

Na troca, nenhum dedo sobe além da espessura de uma folha de papel: ele solta a tecla e continua tocando a superfície.

O cravista e compositor alemão Carl Philipp Emanuel Bach, filho de Johann Sebastian Bach, publicou em 1753 o Versuch über die wahre Art das Clavier zu spielen (Ensaio sobre a verdadeira arte de tocar teclado). A primeira parte do livro inteira trata do dedilhado, porque para ele o caminho de cada dedo entre as teclas decidia se a música soava ligada ou picada.

Passo 1: toque o dó, segure quatro tempos e solte as três teclas sem descolar os dedos delas.

Passo 2: arraste o polegar do dó quatro ao lá três pela superfície das brancas, enquanto o indicador escorrega até o dó quatro e o mínimo desce até o fá quatro. Aperte o fá.

Passo 3: volte ao dó pelo mesmo trilho, arrastando, com o médio reassumindo o mi quatro.

Passo 4: do dó ao sol, o polegar desce uma tecla até o si três, o indicador encosta no ré quatro e o mínimo segue no sol quatro.

Passo 5: do sol ao dó, o polegar sobe ao dó quatro e o médio volta ao mi quatro. A volta fecha a sequência na casa.

São cinco acordes e quatro trocas: dó, fá, dó, sol, dó. Em nenhuma delas um dedo percorre mais que duas teclas brancas, distância que a mão vence arrastando, sem precisar voar.

 
 

II  O Erro que Trava

A mão que procura no ar

O erro que trava começa quando o acorde termina. O aluno segura o dó, prepara o fá e, sem perceber, sobe a mão inteira três ou quatro centímetros antes de descer. O pulso acompanha, os dedos se esticam, e a mão chega ao fá com outro formato.

No ar, os dedos não sentem borda nem degrau. A mão desce por estimativa, e a estimativa erra por uma tecla com frequência: o polegar que deveria cair no lá três pousa no si três, e o acorde sai com um som áspero no meio.

O ouvido percebe antes do olho. O aluno abaixa a cabeça para conferir, corrige o dedo, e nesse ajuste a batida do compasso passou. O acorde que deveria entrar no tempo um entra no tempo dois.

Há um segundo sinal, e ele é o estalo da cena de abertura. A mão que volta do alto ganha velocidade na descida e bate nas teclas com força. O acorde sai mais alto que os outros, e o plástico estala.

A música perde o legato (o ligado, sem buraco de silêncio entre um som e o próximo). Entre um acorde e outro sobra uma pausa que ninguém escreveu na partitura, e a sequência soa como cinco blocos soltos.

O dedo que nunca deixa a tecla nunca precisa procurá-la.

O tato resolve o que o olho resolveria tarde. O polegar sente a borda entre o dó e o si quando escorrega para baixo, e o mínimo sente o degrau da tecla preta fá sustenido logo acima do fá quatro. Cada pista confirma a posição sem a cabeça abaixar.

Correção 1: faça as quatro trocas sem apertar nada, só arrastando os dedos pela superfície, dez vezes seguidas, de olhos fechados.

Correção 2: apoie uma moeda nas costas da mão direita e toque a sequência devagar. Se a moeda cair, a mão subiu na troca.

Correção 3: metrônomo a 60, com cada acorde valendo quatro tempos. A troca acontece no quarto tempo, deslizando, para o acorde novo soar exatamente no tempo um.

Quando a moeda atravessa as quatro trocas sem cair, o estalo some junto. A mão para de bater porque deixou de cair de longe, e cada acorde entra com o mesmo volume do anterior.

 

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III  A Mão Esquerda

O grave que marca a troca

A mão esquerda entra com uma nota só por acorde, a nota que dá nome a ele: dó três para o dó, fá três para o fá e sol três para o sol. São as três notas graves desta lição, todas uma oitava abaixo da mão direita.

Pouse o mínimo esquerdo (dedo 5) no dó três e deixe os outros dedos caírem nas teclas vizinhas: anelar no ré, médio no mi, indicador no fá e polegar no sol. Com a mão assim, as três notas graves ficam debaixo de dedos que já estão nelas.

O dó sai com o mínimo, o fá com o indicador e o sol com o polegar. A esquerda não viaja: ela fica parada em cinco teclas e só troca o dedo que aperta, o que deixa toda a atenção da troca para a direita.

O tempo da esquerda é o tempo um. Ela toca junto com o acorde da direita e segura pelos quatro tempos. Na troca, os dedos esquerdos também ficam encostados nas teclas, prontos para a próxima nota.

A esquerda toca cinco notas na sequência, dó, fá, dó, sol e dó, e cada uma cai junto com o acorde novo da direita.

A sequência de tônica, subdominante e dominante sustenta canções inteiras. La Bamba, na gravação de Ritchie Valens de 1958, gira em três acordes nessa relação, e a forma do blues de 12 compassos (a estrutura de doze compassos que repete a cada volta) foi montada sobre os mesmos três graus.

Quando as duas mãos tocam juntas, a esquerda vira um teste extra para a direita. Se o grave chega e o acorde de cima atrasa, a mão direita subiu na troca. Se os dois chegam juntos, os dedos viajaram rentes.

Tempo 1: metrônomo a 60, e só a esquerda: dó, fá, dó, sol, dó, uma nota a cada quatro tempos, com os dedos parados sobre as cinco teclas.

Tempo 2: as duas mãos juntas, devagar, a esquerda apertando o grave no mesmo instante em que a direita aperta o acorde.

Tempo 3: toque a sequência três vezes seguidas e suba para 72 quando nenhum grave chegar sozinho antes do acorde.

“Na sua mão, qual das quatro trocas ainda faz os dedos subirem?”

Teste hoje: toque as quatro trocas cinco vezes seguidas com a moeda nas costas da mão direita. Conte quantas vezes ela caiu e quantas vezes você olhou para o teclado. O esperado é zero nas duas contas em 20 trocas; duas quedas ou mais pedem três minutos da Correção 1 antes de seguir.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, quem publicou em 1753 o tratado que diz que o caminho de cada dedo entre as teclas decide se a música soa ligada ou picada?

AJohann Sebastian Bach
BWolfgang Amadeus Mozart
CCarl Philipp Emanuel Bach
DLudwig van Beethoven

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