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8 pousos sem som ensinam a troca de acordes

A mão percorre dó, sol, lá menor e fá sem apertar tecla, oito vezes seguidas, e só depois liga o volume.

Teclado com os acordes de dó, sol, lá menor e fá na direita e os quatro baixos na esquerda

Dó, sol, lá menor e fá, com os baixos na esquerda

▼
 

A tecla branca faz um estalo seco de plástico quando o dedo encosta nela e não afunda, um som tão baixo que o ventilador do quarto cobre.

A cifra da música está aberta no celular, apoiada na estante: C, G, Am, F. São as letras que nomeiam os acordes na notação usada em revista de música e site de letra, e aqui querem dizer dó maior, sol maior, lá menor e fá maior. Quatro acordes, repetidos do começo ao fim da canção.

Quem começa costuma ligar o volume e atacar a sequência inteira. O dó sai bonito. Na passagem para o sol, a mão para, os olhos descem para o teclado, os dedos procuram a tecla e o pulso da música se quebra. A mesma pausa volta na passagem do lá menor para o fá, e na volta do fá para o dó.

O tropeço mora no intervalo entre um acorde e outro. Cada acorde sozinho a mão monta sem drama. A troca, o caminho que os dedos fazem de uma forma para a seguinte, quase nunca é ensaiada por conta própria: ela só acontece no meio da música, com som, com pressa e com o ouvido julgando cada nota.

Com o volume ligado, todo tropeço vira barulho. O ouvido escuta a nota errada, a atenção corre para ela e a mão perde a pista do caminho que estava fazendo. Na tentativa seguinte, os dedos repetem a hesitação, porque foi ela que treinaram.

O ensaio sem som tira o ouvido da sala por alguns minutos. A mão percorre os quatro acordes pousando nas teclas sem apertar nenhuma, como quem decora o caminho de casa no escuro antes de acender a luz. São oito voltas seguidas. Só depois o volume sobe e a sequência ganha som.

A primeira seção mostra onde cada dedo pousa nos quatro acordes e como contar as oito voltas.

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I  A Lição de Hoje

Oito voltas mudas pelos quatro acordes

A resposta de ontem

Por que Ebbinghaus decorou sílabas sem sentido?

Para medir a memória sem ajuda do significado. Palavras reais chegam carregadas de lembranças, imagens e associações, e cada pessoa já conhece algumas melhor que outras. Ebbinghaus explicou em Über das Gedächtnis, de 1885, que as sílabas sem sentido eram material uniforme e novo, e assim o esforço de reaprender mostrava o esquecimento puro.

Os quatro acordes da lição cabem numa mão só, quase sem a mão sair do lugar. O dó maior fica com o polegar no dó central, o dedo médio no mi e o mínimo no sol. É a posição de partida e a de chegada de cada volta.

O sol maior entra na primeira inversão (a ordem em que a terceira nota do acorde, o si, fica embaixo). O polegar desce do dó para o si, o indicador vai para o ré e o mínimo continua no sol. Só dois dedos andam, e o mínimo serve de âncora.

O lá menor devolve o polegar ao dó central, troca o indicador pelo médio no mi e sobe o mínimo do sol para o lá. Os três dedos andam, cada um uma tecla só, e nenhum precisa pular.

O fá maior, por fim, mantém o polegar no dó e o mínimo no lá. Só o médio sai do mi e avança para o fá. Na volta do fá para o dó, o médio recua para o mi e o mínimo desce do lá para o sol.

A volta muda é simples de descrever. A mão pousa no dó maior, encosta as três pontas dos dedos nas teclas e não afunda nenhuma. Conta quatro tempos em voz baixa. No quarto, levanta um pouco e pousa no sol maior. Mais quatro tempos, e lá menor. Mais quatro, e fá. Mais quatro, e de volta ao dó.

Pousar sem apertar pede uma pressão exata: as pontas tocam o plástico, sentem a borda da tecla vizinha e param ali. Se uma tecla afundar e soar, a volta vale do mesmo jeito, e a mão aprende a ser mais leve na seguinte.

Os olhos podem acompanhar as duas primeiras voltas. Da terceira em diante, eles ficam na cifra da estante, como ficariam durante a música. A partir da quinta, os quatro tempos encurtam para dois, e a troca fica mais rápida.

A troca de acorde é um caminho, e o caminho se ensaia sozinho, antes de a música exigir som e pulso.

1. Duas voltas lentas, olhando as teclas, quatro tempos por acorde.

2. Duas voltas com os olhos na cifra, ainda em quatro tempos.

3. Quatro voltas com os olhos na cifra, em dois tempos por acorde.

4. Volume ligado: a sequência inteira, uma vez, em dois tempos.

A oitava volta muda termina com a mão pousada no dó maior. Nesse instante o volume sobe, e a primeira passagem com som começa sem a mão sair do lugar. A sequência toca uma vez inteira, no mesmo pulso das últimas voltas, e a lição do dia acaba ali.

 
 

II  O Erro que Trava

O som chega antes do caminho

O erro que trava a troca de acordes é tocar com som desde a primeira tentativa. Parece o jeito natural de estudar, porque teclado é instrumento de som. Só que o som cobra um preço: a cada nota errada, o ouvido rouba a atenção que a mão precisava para lembrar o caminho.

A troca em silêncio tem respaldo de laboratório. Em 1995, o neurologista espanhol Alvaro Pascual-Leone publicou no Journal of Neurophysiology, com colegas, um estudo em que voluntários aprendiam um exercício de cinco dedos no piano. Um grupo tocava o exercício; outro só imaginava tocar, sentado diante do teclado, sem mexer os dedos.

Os dois grupos treinavam duas horas por dia, durante cinco dias. Com estimulação magnética, uma técnica que lê pelo couro cabeludo a resposta da área do cérebro que comanda os dedos, a equipe mediu como essa área mudava. Ela cresceu nos dois grupos, inclusive no grupo que nunca tinha apertado uma tecla.

O ensaio mental sozinho não alcançou o grupo que tocou. Os voluntários que só imaginaram erravam mais e tocavam mais devagar no fim dos cinco dias. Uma única sessão de prática com som, depois do ensaio mental, levou o desempenho deles ao nível do grupo que vinha tocando.

A volta muda desta lição fica entre os dois grupos. A mão se mexe e encosta nas teclas, como no grupo que tocou, e o som fica guardado para o fim, como no grupo que imaginou. O tato trabalha sem o ouvido disputar a atenção com ele.

Há um segundo motivo para segurar o volume. Com som, quem estuda tende a parar a cada nota errada para corrigir. A parada vira parte do caminho: depois de algumas tentativas, a mão já espera ali, mesmo quando o acorde sai certo. O pulso da música quebra sempre no mesmo ponto.

Em silêncio, a volta não tem nota errada para ouvir. Se o dedo pousa torto, ele se ajeita sem parar a contagem, e o quarto tempo chega no horário. A mão aprende a seguir em frente, e é seguir em frente que a música vai exigir dela.

Com som desde a primeira volta, a mão treina a parada; em silêncio, treina o caminho.

O silêncio tem prazo. Oito voltas bastam para a forma das trocas assentar, e passar delas adia a parte que a lição quer: a sequência com som, no pulso. A volta muda prepara o terreno e sai de cena.

Um sinal ajuda a saber se as voltas renderam. Na primeira passagem com volume, a mão não deve olhar para baixo em nenhuma troca. Se olhar, vale mais uma volta muda só na passagem que travou, e depois a sequência inteira com som de novo.

 

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III  A Mão Esquerda

Quatro baixos sem som na esquerda

A mão esquerda entra na lição com uma nota por acorde, o baixo (a nota mais grave, que dá nome ao acorde). Para o dó maior, o dó uma oitava abaixo do dó central. Para o sol, o sol logo acima dele. Para o lá menor, o lá vizinho do sol. Para o fá, o fá entre o dó e o sol.

Os quatro baixos moram na mesma região, entre o dó grave e o lá. O mínimo pousa no dó, e o polegar alcança o sol, a quinta tecla branca contando o próprio dó. Para o lá, a mão inteira desliza uma tecla para a direita. Para o fá, ela recua, e o indicador encontra a tecla.

Com a esquerda, a volta muda segue as mesmas regras da direita. O dedo encosta no baixo sem apertar, a contagem segue em quatro tempos e, no quarto, o dedo viaja para o baixo seguinte. Uma volta passa pelo dó, sol, lá e fá e retorna ao dó.

A passagem que mais engana a esquerda é a do sol para o lá. O polegar, que estava no sol, passa a ocupar o lá, e a mão perde por um instante a referência do dó grave. O guia é o tato: o lá fica entre a segunda e a terceira tecla preta do grupo de três.

Depois de oito voltas sozinha, a esquerda se junta à direita, ainda em silêncio. As duas mãos pousam juntas no dó maior, contam os quatro tempos e trocam ao mesmo tempo. O ponto a observar é a chegada: os quatro dedos, três na direita e um na esquerda, devem encostar nas teclas no mesmo instante.

As duas mãos trocam juntas quando cada uma já conhece o próprio caminho.

1. Oito voltas mudas só com a esquerda, pelos quatro baixos.

2. Quatro voltas mudas com as duas mãos juntas.

3. Volume ligado: a sequência com as duas mãos, uma vez.

Na passagem com som, a esquerda toca o baixo no primeiro tempo e solta, enquanto a direita segura o acorde. Esse baixo curto dá à música o chão que faltava, e o pulso fica audível mesmo num volume baixo.

Teste hoje: faça as oito voltas mudas da direita, ligue o volume e toque a sequência inteira duas vezes, contando em quantas das oito trocas os olhos desceram para o teclado. O esperado é zero ou uma, com o pulso seguindo sem parada entre o sol e o lá menor.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que instituto Alvaro Pascual-Leone fez o experimento do piano imaginado?

 
 
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No estudo de 1995 citado na edição, quantas horas por dia os voluntários treinaram, e por quantos dias?

AUma hora por dia, durante sete dias
BDuas horas por dia, durante cinco dias
CTrês horas por dia, durante três dias
DQuatro horas por dia, durante dez dias

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