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A esquerda cobre a melodia

Quatro compassos, o acorde da esquerda pela metade do volume e uma escuta só: a melodia da direita aparece por cima?

Teclado com a melodia de dó a sol na direita e o acorde de dó maior na esquerda

Melodia na direita, acorde de dó na esquerda

▼
 

Na sala, o teclado tocou os quatro primeiros compassos de uma música de aniversário, e ninguém cantou junto.

As notas estavam certas. A mão direita fez a melodia inteira, tecla por tecla, sem tropeço. A mão esquerda segurou o acorde de dó maior embaixo, firme, no tempo. Mesmo assim, quem ouvia não reconheceu a música. Chegou aos ouvidos um bloco cheio, e a linha que todo mundo conhece se perdeu dentro dele.

O problema não estava em nenhuma tecla. Estava no peso. As duas mãos desceram com a mesma força, e três notas graves soando juntas têm mais corpo do que uma nota aguda sozinha. A esquerda ganhou a disputa sem querer, e a melodia passou a soar como mais uma voz do acorde.

Ouvido nenhum separa as vozes por conta própria quando elas chegam no mesmo volume. Ele escuta a soma. Para a melodia aparecer, ela precisa chegar mais alto que o resto, e o resto precisa aceitar ficar atrás.

O próprio instrumento nasceu dessa diferença. Por volta de 1700, em Florença, o construtor Bartolomeo Cristofori, que cuidava dos instrumentos da corte dos Médici, montou um teclado com martelos no lugar das penas do cravo. No cravo, a tecla belisca a corda sempre do mesmo jeito, e o dedo não muda o volume. No invento de Cristofori, o dedo leve dava um som fraco, e o dedo pesado, um som forte.

A novidade pesou tanto que entrou no nome. O instrumento foi batizado justamente por tocar fraco e forte, e a palavra piano usada hoje é só um pedaço desse nome antigo, encurtado pelo uso ao longo de quase um século.

Tocar as duas mãos com o mesmo peso desperdiça exatamente o recurso que o piano veio trazer. A lição de hoje usa quatro compassos simples para treinar a separação: a direita canta, a esquerda acompanha pela metade do volume. A primeira seção monta o trecho e o jeito de escutá-lo.

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I  A Lição de Hoje

Quatro compassos sobre o dó

A resposta de ontem

Qual instrumento batizou o acorde tocado em fila?

Da harpa. A palavra arpejo vem do italiano arpeggiare, tocar à maneira da harpa (arpa), porque o harpista faz soar as cordas uma a uma. Na partitura, o arpejo pedido de propósito aparece como uma linha ondulada vertical antes do acorde, e o pianista espalha as notas de baixo para cima.

O trecho cabe numa linha de partitura. A mão direita fica na posição de dó, com o polegar no dó central e cada dedo sobre a tecla branca seguinte: ré, mi, fá e sol. A mão esquerda pousa no acorde de dó maior uma oitava abaixo, com o mínimo no dó, o médio no mi e o polegar no sol.

A melodia anda em quatro compassos de quatro tempos. No primeiro, dó, ré, mi e fá, um tempo cada. No segundo, sol, segurado pelos quatro tempos. No terceiro, fá, mi, ré e dó, descendo. No quarto, dó de novo, segurado até o fim.

A esquerda faz um gesto só por compasso. Ela toca o acorde no primeiro tempo, junto com a primeira nota da melodia, e segura as três teclas até o compasso seguinte começar. São quatro acordes, um por compasso, sempre o mesmo dó maior.

Antes de juntar, cada mão toca sozinha. A direita faz os quatro compassos até a melodia sair sem pausa entre as notas. A esquerda faz os quatro acordes contando os tempos em voz alta, um, dois, três, quatro, e só desce na palavra um.

A medida da lição é o volume relativo. A direita toca no volume normal de estudo, nem forte nem fraco. A esquerda toca na metade dele. Metade não precisa ser medida em aparelho: basta que, com as duas mãos juntas, a melodia continue sendo a primeira voz que o ouvido encontra.

A direita canta no volume normal; a esquerda desce com metade do peso e fica atrás, como o fundo de uma fotografia.

Um jeito simples de achar a metade é tocar o acorde da esquerda três vezes, cada vez mais leve, até a vez em que as três notas ainda soam, mas sem encher a sala. O peso dessa terceira vez é o ponto de partida.

A escuta pede um teste de reconhecimento. Toque os quatro compassos e pergunte: se alguém entrasse na sala agora, conseguiria cantarolar a melodia de volta? Se a resposta for sim, a direita apareceu. Se o que fica na memória é um som cheio e sem linha, a esquerda ainda está alta.

1. Toque a melodia sozinha duas vezes, no volume normal.

2. Toque os quatro acordes sozinhos, cada vez mais leves, até achar a metade.

3. Junte as mãos, com o acorde descendo no primeiro tempo de cada compasso.

4. Ao fim, cantarole a melodia que acabou de ouvir.

5. Se não conseguir, repita com a esquerda ainda mais leve.

Nas primeiras rodadas, a melodia costuma sumir justamente no segundo e no quarto compasso, onde a direita segura uma nota longa e o acorde entra por baixo dela. É ali que o ouvido mais precisa da diferença de volume, e é ali que vale prestar atenção primeiro.

 
 

II  O Erro que Trava

Peso igual nas duas mãos

O erro mais comum desta lição não aparece como nota errada. Aparece como igualdade: as duas mãos descem com a mesma força, e o ouvido recebe quatro notas no mesmo volume, três embaixo e uma em cima.

A igualdade nasce do corpo, não da tecla. Quando as mãos começam a tocar juntas, o gesto tende a se espelhar, e o braço esquerdo copia a energia do direito. Quem consegue tocar a esquerda leve sozinha muitas vezes perde a leveza no instante em que a direita entra.

A soma explica o resultado. Três notas tocadas com a mesma força de uma nota única produzem um som mais encorpado do que ela. Mesmo com o peso igual tecla por tecla, o acorde inteiro já sai na frente, e a melodia fica por baixo do bloco.

O grave piora a disputa. As notas da região baixa do teclado soam mais longas e mais cheias que as do meio, e continuam vibrando enquanto a direita passa para a nota seguinte. Na nota longa do segundo compasso, o acorde ainda soa no momento em que a melodia precisava aparecer sozinha.

Peso igual nas duas mãos não gera equilíbrio: três notas graves contra uma aguda deixam a melodia sempre atrás.

A primeira reação de quem percebe o problema é tocar a direita mais forte. Funciona por alguns compassos e cria outro defeito: a melodia fica dura, batida, e a mão direita se cansa. O caminho certo é o inverso, baixar a esquerda e deixar a direita no volume em que ela canta com conforto.

Também é comum soltar o acorde cedo demais para abrir espaço. A esquerda toca e já levanta, e a melodia fica sem chão, flutuando sobre um vazio. O acorde precisa durar o compasso inteiro, só que baixo.

Para diagnosticar, grave os quatro compassos com o celular apoiado perto do teclado e ouça a gravação de olhos fechados. A gravação mostra o que a mão não percebe enquanto toca: se a melodia some nos compassos dois e quatro, o peso está igual.

1. Grave os quatro compassos no volume que sair natural.

2. Ouça e marque em quais compassos a melodia sumiu.

3. Toque só a esquerda nesses compassos, mais leve que antes.

4. Junte as mãos de novo e grave mais uma vez.

5. Compare as duas gravações, compasso por compasso.

A segunda gravação costuma revelar uma melodia que estava lá o tempo todo, apenas coberta. Nenhuma nota mudou entre uma e outra, só o peso de uma das mãos.

 

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III  A Mão Esquerda

A tecla que desce devagar

Tocar leve com a esquerda é uma habilidade própria, e ela se treina longe da melodia. O ponto de partida é a mão em repouso sobre o acorde, com o mínimo no dó, o médio no mi e o polegar no sol, os dedos já encostados no marfim antes do som.

Encostar antes de tocar muda o volume. Quando o dedo cai de longe, ganha velocidade no caminho e bate na tecla com força. Quando parte da superfície, a tecla desce só com o peso que a mão decide dar, e o som sai mais leve sem esforço.

A velocidade da tecla manda no volume. No piano, o martelo atinge a corda com a velocidade com que a tecla desceu: tecla rápida, som forte; tecla lenta, som fraco. Para a esquerda soar pela metade, ela precisa descer mais devagar, não com menos firmeza.

Nos teclados com sensibilidade ao toque, o mesmo princípio vale, porque o aparelho mede a velocidade da tecla. Num teclado sem sensibilidade, o volume não muda pelo dedo, e esta lição pede um modelo sensível ao toque ou um piano.

Firmeza e leveza andam juntas. Os três dedos ficam firmes na posição, sem dobrar nas juntas, e o que diminui é a velocidade com que a mão inteira afunda. Dedo mole produz notas desencontradas, uma soando e outra falhando.

Volume baixo vem de tecla lenta e dedo firme, encostado no marfim antes do som.

Um exercício de três degraus ajuda a mão a conhecer o próprio controle. Toque o acorde forte, depois médio, depois fraco, e repita a escada algumas vezes. O degrau fraco é o volume da esquerda nos quatro compassos.

1. Encoste os três dedos da esquerda no acorde de dó, sem tocar.

2. Toque o acorde forte, depois médio, depois fraco.

3. Repita a escada três vezes, sem tirar os dedos das teclas.

4. Guarde o degrau fraco e toque os quatro compassos com ele.

5. Termine cantarolando a melodia, como no teste da primeira seção.

Quando a melodia aparecer em todas as rodadas, leve a mesma esquerda leve para uma música conhecida com um acorde embaixo de cada compasso. O controle vale para qualquer melodia, e cada música nova confirma o que a mão aprendeu.

Teste hoje: toque os quatro compassos três vezes com a esquerda no degrau fraco e grave a última rodada. O esperado é ouvir a melodia inteira na gravação, inclusive nas notas longas dos compassos dois e quatro, com o controle de fraco e forte que o construtor de Florença pôs no centro do invento e do nome dele.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual nome completo o instrumento de Cristofori recebeu por tocar fraco e forte?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quantas vezes a mão esquerda toca o acorde de dó maior dentro de cada um dos quatro compassos da lição?

ADuas vezes, no primeiro e no terceiro tempo do compasso
BUma vez, no primeiro tempo, segurando o acorde até o compasso seguinte começar
CQuatro vezes, uma vez a cada tempo do compasso
DTrês vezes, acompanhando as três primeiras notas da melodia

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