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A marcha de Wagner cabe em três teclas
Um salto de sol para dó, três dós repetidos, e o coro que Wagner escreveu para depois do altar, nunca para a entrada da noiva.
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Marcha nupcial: o salto de sol para dó
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O órgão puxa o ar antes de qualquer nota sair, o carpete do corredor abafa o passo e o banco de madeira devolve a vibração nas costas de quem senta encostado na parede. Então vem o salto de uma nota sozinha para outra bem mais alta, e três repetições dessa nota alta, uma atrás da outra. A igreja inteira levanta sem ninguém avisar, e quem está na cozinha do salão ao lado reconhece a música pela parede.
Ela tem nome e endereço. É o coro nupcial da ópera Lohengrin, de Richard Wagner, que estreou no Teatro da Corte de Weimar em 28 de agosto de 1850, com Franz Liszt na regência. Wagner não estava na plateia. Exilado desde a revolta de Dresden, em 1849, ele vivia na Suíça sob risco de prisão, acompanhou a estreia por cartas e só assistiu à própria ópera em 1861, em Viena, onze anos depois de escrevê-la.
Dentro da peça, o coro se chama Treulich geführt (conduzidos com fidelidade) e não acompanha entrada nenhuma. Ele abre o terceiro ato, quando as damas e os cavaleiros levam Elsa de Brabante e o cavaleiro Lohengrin até o quarto do casal, com a cerimônia já encerrada. Os convidados cantam, se despedem, fecham a porta e somem. O que o público brasileiro ouve como abertura, na ópera, é despedida.
O caminho até o altar brasileiro passou por Londres. Em 25 de janeiro de 1858, a princesa Vitória, filha mais velha da rainha Vitória, casou com o príncipe Frederico da Prússia na Capela Real do Palácio de St James. Ela escolheu o coro de Wagner para a entrada e a marcha de Felix Mendelssohn, escrita em 1842 para Sonho de uma Noite de Verão, para a saída. O casamento real virou modelo copiado na Europa e na América, e o par continua colado ao ritual.
No teclado, a entrada inteira cabe em poucas teclas, com a mão direita parada do começo ao fim. A lição de hoje monta o salto, os três repetidos e a resposta que devolve a frase ao ponto de partida, sem tecla preta nenhuma.
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I A Lição de Hoje
Três teclas e um salto de quarta
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As teclas de hoje: sol, lá e dó, todas brancas, na mão direita, acima do dó central.
Apoie o polegar no sol que fica cinco teclas brancas acima do dó central e deixe a mão cair nas brancas seguintes, sol, lá, si e dó, um dedo por tecla. Toque sol, dó, dó, dó, lá, dó, sol, sem tirar o polegar do sol entre uma nota e outra. A entrada inteira nasce dessa posição parada. |
Ache o dó central primeiro, a branca imediatamente à esquerda do grupo de duas pretas, no meio do instrumento. Conte quatro brancas para a direita, ré, mi, fá, sol, e pare no sol: daí para cima trabalha a mão inteira.
A digitação segue a posição natural: polegar 1 no sol, dedo 2 no lá, dedo 3 no si, dedo 4 no dó. O salto que abre a música vai do polegar direto para o dedo 4, um intervalo de quarta justa, quatro brancas contando as duas pontas.
O desenho rítmico importa tanto quanto as notas. O sol inicial é uma anacruse, a nota que chega antes do primeiro tempo forte do compasso, curta e sem peso, como um impulso. O primeiro dó cai no tempo forte, longo, e é dele que vem a sensação de porta abrindo. Os dois dós seguintes são mais curtos e preparam a resposta.
O salto sol para dó é curto no papel e enorme no efeito: quatro brancas de distância bastam para o ouvido entender que a música começou e que alguém vai entrar na sala. |
“O erro do gênero artístico da ópera consistia em que um meio da expressão, a música, foi transformado em fim, e o fim da expressão, o drama, em meio.” > > > Richard Wagner, Ópera e Drama, 1851 |
Wagner publicou o tratado no ano seguinte à estreia de Lohengrin, defendendo que música e cena servissem à mesma história. A frase explica o gesto desta melodia: o salto anuncia um acontecimento, e quem toca precisa sustentar o primeiro dó até o fim do tempo para que o anúncio chegue.
Passo 1: apoie os quatro dedos nas brancas de sol a dó e toque cada tecla uma vez, subindo e descendo, sem olhar para a mão.
Passo 2: toque só sol e dó, polegar e dedo 4, doze vezes seguidas, mantendo os dedos 2 e 3 pousados nas teclas sem afundar.
Passo 3: acrescente os três dós, sol, dó, dó, dó, oito vezes, deixando o primeiro dó durar o dobro dos outros dois.
Passo 4: emende a resposta, lá, dó, sol, e toque a frase inteira seis vezes com metrônomo a 66.
O passo 3 é o filtro da lição. Se os três dós saem com a mesma duração, a música perde o tempo forte e vira uma sequência de batidas iguais. Vale contar em voz alta enquanto toca, alongando a contagem no primeiro dó, antes de emendar o passo 4.
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II O Erro que Trava
Os três dós que saem colados
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O erro que trava quase todo iniciante nesta marcha é martelar os três dós com o dedo 4 rígido, sem deixar a tecla subir por inteiro entre uma repetição e outra, o que cola as três notas num borrão só e apaga o tempo forte. O ouvido registra uma nota longa e suja no lugar de três. |
O mecanismo está na mecânica do instrumento. A tecla precisa voltar à posição de repouso para que o martelo, no piano acústico, ou o sensor, no teclado digital, reconheçam o ataque seguinte. Dedo que fica plantado no fundo da tecla impede esse retorno, e a terceira repetição simplesmente não soa.
Existe um segundo erro, que vem de tentar consertar o primeiro pela força. O aluno levanta o braço inteiro a cada dó, e o peso de todo o antebraço cai na tecla três vezes seguidas. As notas saem separadas, mas estouradas e desiguais, e a frase ganha um sotaque de martelo que nenhum casamento pede.
A correção é uma só. Mantenha o dedo 4 curvado e deixe a articulação da tecla fazer o trabalho: pressione até o fundo, solte até a tecla encostar de volta no topo e ataque de novo. O movimento nasce no dedo, o pulso fica solto e o braço só acompanha, sem subir.
Existe também o engano de andar com a mão para buscar o dó. Quem não confia no alcance de quarta desliza o polegar do sol para o lá, toca o dó com o dedo 3 e perde a referência. A frase seguinte já começa errada, e a resposta lá, dó, sol sai uma tecla acima.
Um teste de dois minutos separa o dedo do braço. Toque os três dós com o cotovelo encostado de leve no tronco: se o braço precisa subir para a nota sair, o cotovelo denuncia na hora, porque o contato se desfaz. Repita até os três dós soarem com o cotovelo parado no lugar.
A pressa é o combustível do borrão: a 66 batidas por minuto cada repetição tem tempo de sobra para a tecla voltar, e a 100 o dedo trava antes de o ouvido perceber.
E existe um limite honesto que não depende de técnica. Teclado digital de entrada, sem ação contrapesada, repete nota com menos precisão que um piano acústico, e a terceira repetição pode falhar com o dedo correto. Dá para medir em casa: toque os três dós dez vezes e conte quantas séries saíram com as três notas audíveis; abaixo de sete, com o gesto certo, o instrumento carrega parte da culpa.
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