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A nota mais alta escolhe onde o polegar senta
Antes da primeira tecla, a lição lê o trecho, marca o ré e o lá e senta a mão nas 5 brancas entre os dois.
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O trecho inteiro entre o ré e o lá
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A tecla do lá afundou sem nenhum dedo em cima dela: foi a unha do mindinho, esticado de lado, que raspou a borda do plástico e tirou um som abafado, meio engolido. A mão parou no ar, quatro dedos ainda pousados nas brancas de baixo.
O trecho era a abertura de Atirei o Pau no Gato, a cantiga de roda que quase toda criança brasileira canta antes de saber o que é uma partitura. A primeira frase desceu e subiu sem problema. Na segunda, a melodia pediu uma tecla acima do último dedo disponível.
Quem começa no teclado conhece a cena. A mão senta onde se sente em casa, quase sempre com o polegar no dó central, e começa a tocar. Durante algumas notas tudo cabe. Depois a melodia sobe mais um degrau, o mindinho já está ocupado, e não sobra dedo.
O que acontece em seguida é previsível. O iniciante para, olha para a mão, tira os cinco dedos do teclado e remonta a posição uma tecla acima. A música, que vinha andando, quebra no meio da frase, e o ouvido perde o desenho que estava acompanhando.
O tropeço nasce antes da primeira nota. A mão sentou sem saber até onde o trecho ia subir e até onde ia descer. Cinco dedos cobrem cinco teclas brancas seguidas; um trecho que sobe além delas ou desce abaixo delas obriga a mão a viajar no meio do caminho.
A saída é uma leitura de dez segundos, feita com a mão ainda no colo. Antes de tocar, o olho percorre o trecho inteiro e procura só duas notas: a mais baixa e a mais alta. Entre as duas fica o território que a mão precisa cobrir.
Com esse par marcado, a decisão sai quase sozinha. Na mão direita, a nota mais baixa vai para o polegar e a mais alta tem que cair debaixo do mindinho. Se as duas cabem nas cinco teclas, a mão senta ali e não sai até o fim.
A lição abaixo faz essa leitura na cantiga, nota por nota, e mostra onde os cinco dedos sentam para as duas frases saírem sem nenhuma parada.
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I A Lição de Hoje
O ré embaixo, o lá em cima
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A melodia das duas primeiras frases de Atirei o Pau no Gato tem nove notas em cada frase. A primeira faz sol, fá, mi, ré, mi, fá, sol, sol, sol. A segunda repete o desenho um degrau acima: lá, sol, fá, mi, fá, sol, lá, lá, lá.
Leia as dezoito notas com o dedo indicador apontando no papel, ou na lista acima, sem tocar nada. O objetivo da leitura é um só: achar a nota mais baixa e a nota mais alta de todo o trecho.
A mais baixa aparece no meio da primeira frase: o ré, na quarta nota, onde a melodia termina de descer. A mais alta aparece logo na abertura da segunda frase e volta no final dela: o lá.
Do ré ao lá cabem exatamente cinco teclas brancas: ré, mi, fá, sol e lá. Cinco teclas, cinco dedos. O trecho inteiro mora nesse território, e nenhuma nota escapa dele.
A nota mais baixa diz onde o polegar senta; a nota mais alta confirma se o mindinho alcança. Se as duas cabem nas cinco brancas, a mão não precisa viajar. |
Para achar o ré certo, use o dó central como referência. O dó central é a branca logo à esquerda do par de pretas mais perto do meio do teclado. O ré é a branca vizinha, à direita, encaixada entre as duas pretas desse par.
Pouse a mão direita assim: o polegar, dedo 1, no ré; o indicador, dedo 2, no mi; o médio, dedo 3, no fá; o anelar, dedo 4, no sol; e o mindinho, dedo 5, no lá. Nenhuma preta cai debaixo de um dedo.
Agora a melodia vira uma sequência de números. A primeira frase começa no sol, com o dedo 4, desce 3, 2, 1 até o ré e volta 2, 3, 4, segurando o sol três vezes. A segunda frase começa no lá, com o 5, desce até o mi com o 2 e sobe de volta ao lá.
“A correta aplicação dos dedos está inseparavelmente ligada a toda a arte de tocar.” Carl Philipp Emanuel Bach, Ensaio sobre a verdadeira arte de tocar teclado, 1753 |
O compositor alemão Carl Philipp Emanuel Bach, filho de Johann Sebastian Bach, escreveu esse manual para estudantes de cravo (o antecessor do piano, com cordas beliscadas). Ele dedicou um capítulo inteiro à escolha dos dedos, porque a nota tocada pelo dedo errado obriga a mão a se corrigir no meio da música.
Passo 1: com a mão no colo, leia o trecho e diga em voz alta a nota mais baixa e a mais alta.
Passo 2: pouse a mão com o polegar no ré e toque a primeira frase no metrônomo a 60, uma nota por batida, olhando para a lista de notas.
Passo 3: emende a segunda frase sem levantar a mão e repita as duas frases quatro vezes seguidas, sem parada entre elas.
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II O Erro que Trava
O mindinho que sobra no sol
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O erro que trava esse trecho é sentar a mão por hábito. O iniciante pousa o polegar no dó central, onde aprendeu as primeiras notas, e começa a tocar sem ler até onde a melodia vai.
Com o polegar no dó, os cinco dedos cobrem dó, ré, mi, fá e sol. A primeira frase cabe inteira: o sol cai no mindinho, o ré cai no indicador, e a mão nem desconfia do problema que vem a seguir.
A segunda frase abre no lá, uma tecla acima do mindinho. Ali acaba o dedo. O mindinho já está no sol e não tem para onde ir, e o lá fica descoberto.
Nessa hora o iniciante faz uma de três manobras, todas ruins. Estica o mindinho de lado e raspa o lá com a unha, como na cena da abertura. Ou para tudo e remonta a mão uma tecla acima. Ou toca o lá com o dedo 4, cruzando por cima do mindinho, e a mão se enrosca.
Nas três, a melodia quebra. O ouvido, que estava seguindo o desenho da frase, ouve um buraco, e o aluno sai do trecho com a impressão de que o problema é falta de habilidade. A falha estava na decisão tomada antes da primeira tecla.
Mão que senta sem ler o trecho descobre o limite no meio da frase. Mão que lê antes senta uma vez só e chega ao fim sem parar. |
A correção cabe em três provas curtas, todas feitas antes de tocar.
Correção 1: a prova das duas pontas. Com o trecho à frente, circule a nota mais baixa e a mais alta, ou aponte as duas com o dedo. Só depois de marcar o par a mão desce ao teclado.
Correção 2: a prova da contagem. Conte as brancas do ponto mais baixo ao mais alto, incluindo as duas pontas. Ré, mi, fá, sol, lá: cinco. Se a conta der cinco ou menos, o trecho cabe numa posição só; se passar de cinco, a mão vai precisar de outra solução.
Correção 3: a prova do mindinho. Pouse a mão com o polegar na nota mais baixa e, antes de tocar, encoste o mindinho na nota mais alta. Se ele alcança sem esticar, a posição está decidida.
Quando a conta passa de cinco, a leitura também ajuda. O aluno descobre antes de começar que a mão precisa se mover num ponto do trecho, escolhe esse ponto com calma e marca no papel. A mudança deixa de ser surpresa e vira parte do plano.
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