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A quinta vazia cabe nos dois acordes
Dó com o mínimo e sol com o polegar, tocados juntos na esquerda, dão o acompanhamento que serve ao dó maior e ao dó menor sem trocar dedo.
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Dó e sol juntos na esquerda, sem a terça
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Duas teclas descem juntas e o som que sobe da caixa é largo e oco, sem doçura e sem tristeza, parecido com um sino grande batido dentro de uma igreja vazia. A vibração demora a sumir e continua ali, larga, enquanto os dois dedos seguram as teclas no fundo.
As teclas são o dó grave e o sol acima dele, afundadas pela mão esquerda no mesmo instante, com o dedo mínimo numa ponta e o polegar na outra. Quatro brancas ficam intocadas no meio do caminho, e a palma fica aberta numa distância de cinco teclas que ela quase nunca usa quando toca melodia.
Falta ali a nota que dá cor ao acorde. Num acorde de dó completo, a nota do meio é o mi, e ela decide se o som sai alegre ou triste: mi natural monta o dó maior, mi bemol monta o dó menor. Sem a nota do meio, o par de dedos não decide nada, e a indecisão é justamente o que serve.
Quando a partitura pede dó maior, o par dó e sol cabe. Quando a mesma música vira dó menor alguns compassos adiante, o par continua cabendo, porque nenhuma das duas notas tocadas contraria o acorde novo. A mão de baixo fica parada enquanto a de cima troca a cor da música por cima dela.
Os músicos chamam a construção de quinta, pelo número de degraus contando as pontas: dó, ré, mi, fá, sol, cinco. Quando ela aparece sem a terceira nota do acorde, ganha o apelido de quinta vazia, e o vazio é literal, porque o miolo ficou de fora e sobrou o esqueleto.
Guitarrista de rock conhece o mesmo desenho por outro nome, power chord, e o usa por motivo parecido: o som aguenta qualquer melodia por cima sem brigar com ela, alegre ou triste. No teclado a vantagem é mais prática ainda, porque a esquerda deixa de precisar decidir a cada compasso.
A lição de hoje monta a quinta vazia dedo por dedo, mede a abertura da mão e mostra por que as duas teclas precisam afundar no mesmo instante para o acompanhamento soar como um bloco só.
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I A Lição de Hoje
Dois dedos, cinco teclas
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As teclas de hoje: dó e sol juntos na mão esquerda, sem a nota do meio.
Ponha o dedo mínimo esquerdo no dó grave, uma oitava abaixo do dó central, e o polegar no sol logo acima dele. As duas notas soam juntas, com os dedos 5 e 1, e nenhum outro dedo encosta em tecla nenhuma. |
Conte as brancas antes de tocar. Do dó ao sol existem cinco teclas brancas contando as duas pontas, e as três do meio, ré, mi e fá, ficam livres embaixo dos dedos 4, 3 e 2, que descansam curvos sem afundar nada.
Afunde as duas ao mesmo tempo, devagar, e deixe soar por quatro segundos contados. O que se ouve é largo e sem cor, e a ausência do mi fica evidente logo na primeira vez que a nota do meio some do som que a mão esquerda vinha fazendo.
A abertura de cinco teclas é confortável para quase toda mão adulta, e para mão pequena também, porque o polegar não precisa esticar de lado: basta girar o pulso um grau para a direita e o dedo cai sozinho em cima do sol.
A quinta vazia tem duas notas e nenhuma cor. Dó e sol tocados juntos servem ao dó maior e ao dó menor sem que a esquerda troque um dedo de lugar. |
Agora prove a utilidade com as duas mãos. Segure a quinta vazia na esquerda e toque, com a direita, o mi natural sozinho: a música inteira soa alegre, porque a direita entregou a cor que faltava e o acorde ficou completo em dó maior.
Sem tirar a esquerda do lugar, troque na direita o mi natural pelo mi bemol, a preta imediatamente à esquerda dele. O som fica triste na hora. A esquerda continua exatamente onde estava, com os mesmos dois dedos nas mesmas duas teclas.
Repita a troca dez vezes, alternando mi natural e mi bemol na direita, com a quinta soando embaixo o tempo todo. Ouvir a cor mudar por cima de uma base parada ensina em dois minutos o que uma explicação escrita leva uma página para dizer.
Depois passe a quinta vazia por outras fundamentais, mantendo o desenho da mão intacto. Ré com sol acima, mi com si, fá com dó, sol com ré, cada par com os dedos 5 e 1, e sempre as três brancas do meio livres embaixo dos outros dedos.
Termine tocando a sequência de quatro quintas em fila, dó, fá, sol e dó, quatro tempos em cada uma, com o braço andando pelo teclado e a mão mantendo a abertura fixa. A mão vira um único formato que muda de lugar, e não um conjunto de posições novas.
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II O Erro que Trava
O dedo que aperta antes do outro
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A quinta vazia trava quando os dois dedos não afundam a tecla no mesmo instante. O polegar chega primeiro, o mínimo entra um pouquinho depois, e o acompanhamento que devia soar como um bloco vira um tropeço curto de duas notas. |
O atraso é minúsculo e mesmo assim aparece no som. O ouvido percebe uma quebra parecida com a de um arpejo mal feito, e a base perde o peso que a torna útil, porque o que sustenta a melodia é o choque das duas notas nascendo juntas.
O culpado quase sempre é o polegar. Ele é o dedo mais forte e mais pesado da mão, apoia num osso curto e responde antes dos outros ao comando do braço, então adianta a entrada sem que quem toca perceba a diferença de tempo.
Existe um teste que denuncia o defeito sem equipamento nenhum. Toque a quinta e escute apenas o começo do som: se a primeira coisa que chega ao ouvido tem altura definida, um dedo entrou antes; quando as duas notas nascem juntas, o começo soa como um baque sem nota clara.
O segundo sintoma está no volume. Com o polegar adiantado, o sol sai mais forte que o dó e a base fica pendendo para cima, esquisita embaixo da melodia, que passa a disputar espaço com a nota mais aguda da mão esquerda.
Heinrich Neuhaus, que formou gerações de pianistas no Conservatório de Moscou, tratava o som como a matéria bruta do trabalho ao piano, e não como consequência automática de mover dedos.
“O som é a matéria da música; espiritualizá-lo é a tarefa do pianista.” > Heinrich Neuhaus, A Arte de Tocar Piano, 1958 |
A correção começa pelo braço, não pelos dedos. Deixe o peso descer do ombro para a mão inteira e pense em apoiar a palma sobre as teclas como quem apoia a mão numa mesa, sem empurrar dedo nenhum de forma separada.
Faça o exercício da mão mole, cinco vezes. Levante a mão dez centímetros acima das teclas, com os dedos 5 e 1 já na abertura da quinta, e deixe o braço cair solto, sem empurrar: o peso afunda as duas teclas ao mesmo tempo, porque nenhum dedo recebeu ordem própria.
Depois teste soltando. Segure a quinta por três segundos e levante os dois dedos juntos, escutando o fim do som: se sobrar uma nota tocando sozinha por um instante, a mão está soltando torta e o problema de sincronia continua na saída.
Guarde a consequência para o repertório inteiro. Toda base de mão esquerda com duas ou mais notas simultâneas depende da mesma sincronia, e a mão que resolve a quinta vazia chega nos acordes de três notas com metade do trabalho já feito.
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