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As 61 teclas que o vendedor não apertou
Contato sujo embaixo da tecla deixa nota muda ou fraca, e só aparece para quem testa o teclado inteiro, de ponta a ponta.
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A ponta grave que ninguém testa
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O plástico das teclas estava frio e um pouco áspero, com poeira acumulada nas frestas entre as brancas. A fonte zumbia baixo, ligada numa extensão no chão da garagem do vendedor.
O teclado era um modelo de entrada, 61 teclas, anunciado por metade do preço de um novo. O dono apertou o dó do meio, tocou três acordes de uma música conhecida e disse que estava tudo funcionando. Soou bem. O comprador gostou, pagou e levou para casa.
Duas semanas depois, estudando a primeira escala com a mão esquerda, ele apertou o mi da região grave e não saiu nada. Apertou de novo, com mais força, e a nota veio fraca, quase sumindo. O ré ao lado tocava normal. O fá também.
A falha tem explicação mecânica. Embaixo de cada tecla de um teclado de entrada existe uma tira de borracha condutiva (uma borracha com carbono que fecha o circuito quando é pressionada). Quando a tecla desce, a borracha encosta numa trilha da placa e o teclado entende que a nota foi tocada.
Com os anos, poeira, gordura dos dedos e um pouco de umidade se acumulam entre a borracha e a placa. O contato passa a fechar mal. A tecla afunda igual às outras, mas o sinal chega fraco, chega atrasado ou não chega.
Em muitos teclados com sensibilidade ao toque, cada tecla tem dois contatos, e o instrumento mede o tempo entre o primeiro e o segundo para calcular a força da nota. Se um deles está sujo, a nota sai com volume errado, mesmo quando sai.
E aqui está o detalhe que engana: o vendedor quase sempre testa o mesmo pedaço do teclado. O dó do meio, os acordes da mão direita, as teclas que ele mais usou. As notas da ponta grave e da ponta aguda ficam de fora do teste.
Para quem compra usado, a conta muda. Um teclado com três teclas mudas não serve para estudar escala, e o conserto pode custar uma parte grande do desconto que pareceu vantagem no anúncio.
A lição abaixo mostra como conferir as 61 teclas em menos de dez minutos, na frente do vendedor, antes de pagar.
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I A Lição de Hoje
A varredura de ponta a ponta
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A conferência começa pela tecla mais grave e termina na mais aguda, sem pular nenhuma. Num teclado de 61 teclas, são 36 brancas e 25 pretas. Todas entram no teste, inclusive as que você acha que nunca vai usar.
Antes de começar, prepare o instrumento. Ligue o teclado, escolha o timbre de piano, que costuma ser o primeiro da lista, e desligue qualquer efeito de eco, acompanhamento ou ritmo automático. Coloque o volume no meio.
Desligar os efeitos tem motivo. O eco prolonga a nota anterior e pode esconder uma tecla muda logo depois dela. O ritmo automático enche o ouvido de som e disfarça uma nota fraca no meio do acompanhamento.
Agora toque. Comece pelo dó mais grave, com o dedo indicador da mão esquerda, e suba tecla por tecla, brancas e pretas, na ordem em que aparecem. Uma nota por vez, com força média, sempre a mesma força.
A força igual é o centro do teste. Se você aperta umas teclas com mais peso e outras com menos, não dá para saber se a nota saiu fraca por causa do contato ou por causa do dedo. Pense numa batida de porta: firme, sem pancada.
A tecla que exige força extra para soar é tecla com defeito, mesmo quando acaba soando. Anote cada uma que precisou de segunda tentativa. |
Ao chegar na ponta aguda, faça a volta descendo, agora com força leve. Contato parcialmente sujo costuma falhar primeiro no toque fraco, porque a borracha encosta com menos pressão na trilha da placa.
Depois, um teste de repetição. Escolha cinco teclas espalhadas, duas graves, uma do meio e duas agudas, e toque cada uma oito vezes seguidas, rápido. A nota tem que sair as oito vezes, com o mesmo volume.
Por último, ouça o fim de cada nota. Ao soltar a tecla, o som deve parar, ou decair do mesmo jeito em todas. Uma nota que continua soando depois de solta, ou que corta seca enquanto as vizinhas decaem, também entra na lista.
Passo 1: desligue eco, ritmo e acompanhamento, escolha o timbre de piano e deixe o volume no meio.
Passo 2: suba as 61 teclas com força média e desça com força leve, anotando toda tecla que falhou ou pediu segunda tentativa.
Passo 3: toque oito vezes seguidas cinco teclas espalhadas e confira se as oito notas saem com o mesmo volume.
Com a lista na mão, você sabe exatamente o que está comprando, e quanto pedir de desconto.
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II O Erro que Trava
O dó do meio que engana
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O erro que trava o comprador de teclado usado é aceitar a demonstração do vendedor como teste. Quem vende toca o que sabe tocar, e quase todo mundo sabe tocar no centro do teclado.
Não há má-fé obrigatória na demonstração. O dono pode nunca ter percebido a tecla muda. Se ele tocava só músicas com a mão direita perto do dó central, o mi grave passou anos sem ser apertado, e o defeito cresceu em silêncio.
O resultado prático é uma região inteira do teclado sem conferência. As teclas da ponta grave são justamente as que a mão esquerda vai usar para o baixo dos acordes, e as que um iniciante aperta todo dia desde a primeira semana de estudo.
Há um segundo engano, mais sutil. O comprador testa algumas teclas, tudo funciona, e ele conclui que o resto também funciona. Mas o contato sujo não segue padrão. Uma tecla falha e as duas vizinhas tocam perfeitas.
A sujeira também não para de crescer depois da compra. Uma tecla que hoje pede força extra tende a ficar pior com o uso e com a umidade da casa nova. O que era nota fraca na garagem vira nota muda alguns meses depois.
O conserto existe. Um técnico abre o teclado, retira as tiras de borracha, limpa as trilhas da placa e os contatos com álcool isopropílico e monta de novo. Às vezes a borracha está gasta e precisa ser trocada.
O preço varia com a cidade, o modelo e a disponibilidade da peça. Para teclado de entrada, a conta do conserto pode ficar perto da diferença entre o usado e o novo, e o desconto do anúncio desaparece.
Uma tecla muda descoberta antes do Pix vira desconto; descoberta depois, vira conserto. O teste de dez minutos decide qual das duas contas você paga. |
Correção 1: peça para ligar o teclado e toque você mesmo, do primeiro dó ao último, sem aceitar só a demonstração.
Correção 2: leve o teste por escrito no celular, com os três passos da varredura, para não pular etapa na pressa.
Correção 3: com a lista de teclas falhas em mãos, peça orçamento de limpeza a um técnico e use o valor na conversa de preço.
Teclado com uma ou duas teclas fracas ainda pode ser bom negócio, desde que o preço já desconte o conserto. A diferença é que você negocia sabendo o que leva.
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