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As 8 notas graves do Canon de Pachelbel

A mão esquerda repete o mesmo baixo do começo ao fim, e decorar esse laço vem antes da melodia.

Teclado com as oito notas do baixo do Canon de Pachelbel na mão esquerda, do ré grave ao ré central

Canon de Pachelbel: o baixo em dois desenhos

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O ré grave ainda vibrava na caixa do teclado quando o lá entrou por baixo dele, e por meio segundo as duas notas soaram juntas, ásperas, como uma porta rangendo.

Era a mão esquerda tocando o baixo do Canon de Pachelbel pela décima vez seguida. Ré, lá, si, fá sustenido, sol, ré, sol, lá. Oito notas, uma por clique, e depois o ciclo inteiro de novo, igual.

A melodia da mão direita ainda nem tinha entrado. Ela esperava na partitura aberta na estante, com as colcheias (notas de meio tempo) conhecidas de casamento, de comercial e de música de espera ao telefone.

Quem aprende essa música costuma começar pela melodia, porque é a parte cantada. A mão direita decora as primeiras frases, a esquerda tenta acompanhar lendo, e a peça desmonta no primeiro compasso em que as duas precisam andar juntas.

O motivo está na arquitetura da obra. O baixo nunca muda. São as mesmas oito notas do primeiro ao último compasso, e cada frase da melodia foi escrita para encaixar em cima delas. Quando o baixo vacila, a melodia perde o chão, mesmo tocada certa.

Com o baixo decorado, a ordem se inverte. A esquerda passa a tocar sem olhar, guiada pelo corpo, e a atenção inteira sobra para a direita. A melodia ganha um lugar fixo onde pousar a cada tempo.

O ouvido também aprende primeiro pelo grave. Depois de algumas voltas, o lá do fim do ciclo já anuncia o ré do recomeço, e a mão chega à tecla antes do pensamento. O grave vira o relógio da peça.

A lição de hoje decora as oito notas do baixo em dois desenhos de mão, mostra o ponto exato onde a esquerda tropeça na troca de posição e termina com o baixo tocado sozinho, de olhos fechados, antes da primeira nota da melodia.

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I  A Lição de Hoje

Oito graves em dois desenhos

A resposta de ontem

Quem escreveu o poema da Nona Sinfonia de Beethoven?

Foi o poeta e dramaturgo alemão Friedrich Schiller, autor de An die Freude (Ode à Alegria), publicado em 1786 na revista Thalia. Beethoven conheceu o poema ainda jovem, em Bonn, e décadas depois musicou uma seleção das estrofes, na versão revisada de 1803, no coral da Nona Sinfonia.

O Canon em ré maior de Johann Pachelbel, organista alemão de Nuremberg (1653 a 1706), foi escrito para três violinos e baixo contínuo (a linha grave tocada por cravo, órgão ou violoncelo). Ninguém sabe quando a peça foi composta: o manuscrito mais antigo conhecido é uma cópia feita no século XIX, guardada em Berlim, e o original de Pachelbel se perdeu.

A peça passou quase dois séculos esquecida. A gravação da orquestra de câmara do maestro francês Jean-François Paillard, lançada em 1968, levou o Canon às rádios, e dali ele chegou às cerimônias de casamento.

O baixo da peça é um ostinato (um padrão curto repetido sem parar). Na partitura original, as oito notas voltam 28 vezes enquanto os violinos se revezam por cima, um imitando o outro com dois compassos de atraso. Essa imitação dá à obra o nome de cânone.

No teclado, o baixo original desce mais grave do que um iniciante precisa. A versão de hoje sobe tudo para a região do dó central: começa no ré logo acima dele e desce dali, ré, lá, si, fá sustenido, sol, ré, sol, lá.

O fá sustenido é a única tecla preta do ciclo. Sustenido (o sinal # que sobe a nota meio tom) aponta a tecla preta logo à direita do fá.

As oito notas cabem em dois desenhos de mão. O desenho A cobre as quatro primeiras: ré, lá, si, fá sustenido. O desenho B cobre as quatro finais: sol, ré, sol, lá. Entre os dois, a mão inteira desliza um pouco para a esquerda.

O baixo do Canon se decora em dois blocos de quatro notas, um por posição da mão, e nunca nota a nota.

No desenho A, o polegar esquerdo pousa no ré, o anelar no lá, o médio no si e o mínimo no fá sustenido. O dedilhado (a sequência de números de dedo, de 1 no polegar a 5 no mínimo) fica 1, 4, 3, 5.

No desenho B, o mínimo cai no ré grave, o indicador no sol e o polegar no lá. O sol de abertura também vai no indicador, e a sequência fica 2, 5, 2, 1.

Passo 1: toque só o desenho A, 1, 4, 3, 5, quatro vezes seguidas com o metrônomo a 60, uma nota por clique.

Passo 2: toque só o desenho B, 2, 5, 2, 1, mais quatro vezes, no mesmo andamento.

Passo 3: diga em voz alta o nome de cada nota enquanto toca, para o ouvido grudar o nome no som.

Passo 4: junte os dois desenhos num ciclo inteiro e repita o ciclo oito vezes sem parar o metrônomo.

No Passo 4, o ciclo termina no lá e recomeça no ré. Essa volta também se treina: o polegar sobe do lá para o ré, e a mão salta do desenho B de volta para o A sem perder o clique.

A ligação do lá com o ré transforma oito notas soltas num laço sem costura. Quando ela sai limpa, o ouvido deixa de perceber onde o ciclo começa.

 
 

II  O Erro que Trava

Do fá sustenido para o sol

O tropeço do baixo do Canon mora numa troca só: a passagem do fá sustenido para o sol, quarta e quinta notas do ciclo. As duas teclas são vizinhas, a meio tom de distância, e mesmo assim a esquerda congela ali.

A causa é o dedilhado. O fá sustenido sai do mínimo, no fim do desenho A. O sol seguinte sai do indicador, já no desenho B. Entre uma nota e outra, a mão precisa deslizar para a esquerda sem soltar o tempo.

Quem não conhece a troca tenta tocar o sol com o anelar, parado no lá logo acima. O anelar alcança o sol, mas a mão fica presa no desenho A, e o ré grave seguinte cai longe demais do mínimo.

O resultado aparece na gravação: um buraco antes do ré grave, ou um ré tocado às pressas, mais forte que os vizinhos. A melodia da direita, quando entrar, vai tropeçar exatamente nesse buraco.

Há um segundo erro, mais silencioso. Muita gente decora o baixo pelo desenho visual das teclas e esquece o nome das notas. Basta outro arranjo trazer o baixo uma oitava (a distância de um ré ao ré seguinte) abaixo, e a mão não acha mais o caminho.

A troca de posição acontece entre o fá sustenido e o sol, e o indicador precisa estar pronto antes do mínimo soltar a tecla.

O treino isola a troca até ela virar reflexo. A ideia é tocar só as notas do problema, muitas vezes, devagar o bastante para a mão aprender o caminho sem pressa.

Correção 1: toque fá sustenido e sol, mínimo e indicador, vinte vezes a 50, deixando a mão parada no desenho B depois do sol.

Correção 2: acrescente o ré grave, fá sustenido, sol, ré, com o mínimo pousando no ré sem olhar para baixo.

Correção 3: toque o ciclo inteiro a 60 e, no fá sustenido, comece a mover a mão enquanto o mínimo ainda segura a tecla, para o indicador chegar ao sol no clique.

Depois das três correções, grave o ciclo de novo. O esperado é o buraco antes do ré grave sumir primeiro; o ré às pressas some depois, quando a mão para de compensar o atraso com força.

O nome das notas se corrige longe do teclado. Escreva as oito na margem da partitura, ré, lá, si, fá sustenido, sol, ré, sol, lá, e leia em voz alta antes de cada sessão de estudo.

 

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III  A Mão Esquerda

O baixo de olhos fechados

A esquerda do Canon só serve à melodia quando toca sozinha, sem pedir atenção. O teste dessa independência é direto: o baixo precisa sair inteiro com os olhos fechados.

Fechar os olhos tira o apoio visual das teclas e obriga a mão a se guiar pelo tato. A tecla preta do fá sustenido vira o ponto de referência: o mínimo encontra o relevo dela e sabe onde está.

O som também muda de peso. Na região grave, cada nota soa mais tempo e embola com a seguinte se a tecla sobe tarde. Por esse motivo, o baixo pede legato (tocar ligado, sem silêncio entre as notas), com a tecla de trás subindo no instante exato em que a próxima desce.

O baixo pronto é o baixo tocado sem olhar: a partir dali, a atenção inteira fica livre para a melodia.

O andamento também pesa. O Canon costuma ser tocado devagar, e a esquerda que corre no grave dá sensação de pressa à peça inteira, mesmo com a melodia no tempo certo.

Tempo 1: baixo inteiro a 60, olhos abertos, quatro ciclos seguidos, uma nota por clique.

Tempo 2: o mesmo baixo de olhos fechados, quatro ciclos, usando o relevo do fá sustenido para conferir a posição.

Tempo 3: baixo de olhos fechados enquanto a direita toca só a primeira nota da melodia, o fá sustenido acima do dó central, uma vez por ciclo, junto com o ré do começo.

O Tempo 3 abre a porta da melodia. A direita entra com uma nota só, e a esquerda segue o laço sem perceber a visita. Quando a esquerda não se mexe com a chegada da direita, as duas mãos já trabalham independentes.

A melodia completa entra depois, frase por frase, sempre por cima de um baixo que já não precisa de cuidado. Na versão de hoje, ela começa em fá sustenido, mi, ré, dó sustenido, descendo junto com o baixo.

Teste hoje: toque o baixo do Canon a 60, de olhos fechados, oito ciclos seguidos, e conte quantas vezes a mão errou a tecla ou parou na troca do fá sustenido para o sol. Repita depois das três correções; o esperado é cair para um erro ou nenhum nos oito ciclos.

 
 
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Na troca de posição do baixo do Canon, qual dedo toca o sol?

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