|
|
Dó e sol se revezam embaixo do acorde parado
A esquerda alterna duas notas graves, uma por batida, enquanto a direita segura o acorde inteiro sem se mexer.
|
Dó e sol graves, dedos 5 e 1 da esquerda
|
| ▼ |
| |
|
Pitágoras esticou uma corda e dividiu o comprimento dela em duas partes, uma com dois terços da outra. A relação que saiu daí, três para dois, é a distância entre dó e sol, e é o intervalo que o ouvido humano identifica como parentesco antes de qualquer treino musical.
Essa proporção é a razão de dó e sol aparecerem juntos em quase toda música popular do planeta. Nenhum outro par de notas soa tão parecido com uma nota só, e nenhum outro par consegue se revezar embaixo de uma harmonia sem que ninguém perceba que houve troca.
O acompanhamento que nasce desse revezamento tem nome de rua em vários idiomas. É o balanço largo de valsa, o pulso de polca, a batida de bandinha alemã, o violão de sertanejo raiz, a mão esquerda que faz a música andar enquanto a direita fica onde está.
Do lado do teclado, o movimento é modesto e o efeito não é. Duas teclas graves, tocadas uma de cada vez, uma por batida, transformam um acorde estático em algo que caminha, sem que a mão direita precise mudar de posição uma única vez.
Existe uma inversão de papéis aqui que costuma pegar quem está aprendendo. Até agora a direita fazia o movimento e a esquerda segurava; hoje a esquerda é quem se move e a direita é quem segura, e o cérebro precisa de alguns minutos para aceitar a troca de encargo.
A dificuldade não está nas teclas. Achar o dó grave e o sol grave leva meio minuto, e a mão esquerda cobre os dois sem esticar. O trabalho difícil é de volume e de tempo: manter a alternância regular e mais baixa que a melodia enquanto a atenção está toda na mão de cima.
Existe também uma armadilha que aparece justamente quando a coisa começa a dar certo. A alternância pega gosto, a mão acelera sozinha, e o que era acompanhamento vira o instrumento principal da sala.
A lição de hoje leva dez minutos e tem três partes. Monta o acorde parado na direita e as duas notas graves na esquerda, mostra por que o baixo cresce até engolir a melodia e como cortar o crescimento pela raiz, e fecha com a rotina que deixa o revezamento regular.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Lição de Hoje
Dó e sol, uma nota por batida
|
|
Veja as teclas do exercício de hoje, com o dó e o sol graves marcados na esquerda e o acorde de dó maior segurado na direita.
Comece pela mão direita, que hoje é a mão parada. Polegar no dó central, médio no mi, mínimo no sol: os dedos 1, 3 e 5 no acorde de dó maior, exatamente como numa tríade fundamental.
Afunde as três teclas juntas e não solte. Esse acorde vai ficar segurado durante o exercício inteiro, e o único trabalho da direita é não deixar o som morrer antes da hora.
Agora a esquerda. Desça uma oitava a partir do dó central e ache o dó grave: procure o grupo de duas teclas pretas anterior e pegue a branca encostada à esquerda dele.
Ponha o dedo mínimo esquerdo, o dedo 5, sobre esse dó. Ele é o dedo mais fraco da mão e vai carregar a nota mais importante do compasso, o que já explica metade do trabalho de hoje.
O sol grave está quatro teclas brancas acima do dó, subindo. Passe por ré, mi e fá, e pare na branca seguinte, que fica encostada à esquerda do grupo de três pretas mais próximo, do lado direito dele.
Ponha o polegar esquerdo, o dedo 1, sobre esse sol. A mão fica aberta numa quinta confortável, com o mínimo no dó e o polegar no sol, sem que os dedos do meio precisem fazer nada.
|
A mão esquerda não anda hoje: ela fica parada em cima de dó e sol, e só os dedos 5 e 1 se revezam.
|
Toque a alternância sem contar nada, devagar. Dó, sol, dó, sol, uma dúzia de voltas, cada nota deixando a anterior morrer, com o pulso quieto e a palma na mesma altura do começo ao fim.
Repare no som. O dó soa como chão, o sol soa como quem se apoia no chão e volta, e a impressão de ida e volta acontece sozinha, sem que você faça nada além de alternar dois dedos.
Junte as duas mãos agora, mas em ritmo livre. Segure o dó maior na direita, sem soltar, e deixe a esquerda alternar por baixo enquanto o acorde de cima permanece afundado.
Escute o que aconteceu com a harmonia parada. O acorde é o mesmo do início ao fim, e mesmo assim a música parece caminhar, porque o baixo troca de nota e a orelha lê a troca como movimento.
Agora entre o tempo. Conte um, dois, três, quatro em voz alta, batendo o pé, e ponha uma nota da esquerda em cada número: dó no um, sol no dois, dó no três, sol no quatro.
Feche a primeira parte com oito compassos assim, sem parar entre eles. Direita segurando dó maior, esquerda alternando uma nota por batida, contagem em voz alta e pé batendo junto no chão.
|
|
|
|
|
II O Erro que Trava
Quando o baixo vira a música
|
|
A alternância engrena, a mão pega o jeito, e em vinte segundos o acompanhamento está mais alto e mais rápido que tudo o que acontece em cima. O acorde continua lá, mas quem manda na sala virou a mão esquerda.
|
O mecanismo é conhecido e não tem nada de musical. Movimento repetitivo que dá certo acelera sozinho, porque a mão passa a antecipar a próxima repetição em vez de esperar a batida chegar.
O volume vem junto com a velocidade. Quanto mais rápido o dedo cai, mais força ele carrega, e a nota grave tem naturalmente mais corpo que qualquer nota do meio do teclado.
O resultado tem uma assinatura fácil de reconhecer. A música soa como uma marcha de banda: baixo estalando na frente, harmonia sumindo atrás, e a melodia, quando entra, chegando abafada.
Faça o teste que revela o tamanho do desvio. Toque dezesseis batidas contando em voz alta e grave com o celular: na hora de escutar, você vai ouvir o dó e o sol crescendo e a contagem ficando para trás.
A primeira correção é de peso. A esquerda toca com o dedo caindo do próprio peso, sem impulso do braço, e o pulso fica solto: o dedo 5 desce sozinho, e o polegar apenas encosta.
A segunda correção é de escuta. Escolha a mão direita como referência de volume e obrigue a esquerda a ficar abaixo dela, mesmo que soe fraca demais no começo, porque a orelha de dentro exagera o próprio baixo.
A terceira correção é a que resolve de vez. Volte ao pé batendo e trate a batida como um limite, não como sugestão: se a nota chega antes do pé, ela está errada, mesmo que soe bem.
Robert Schumann escreveu uma regra que serve exatamente para esse minuto.
|
“Toque sempre como se um mestre estivesse escutando.”
Robert Schumann, Regras Domésticas e Musicais para os Jovens, 1850
|
Treine a correção isolada, sem a mão direita. Alterne dó e sol o mais fraco que conseguir, oito compassos, tentando fazer as notas quase sumirem, e só então volte ao volume normal.
Existe um erro vizinho que aparece quando a velocidade é domada. A mão passa a tocar as duas notas quase juntas, como se fossem um acorde, e o revezamento perde o desenho de uma nota por vez.
Um último detalhe fecha o assunto. Cada nota da esquerda tem direito à batida inteira dela: solte só quando a próxima descer, para não existir buraco entre as duas nem sobreposição borrada.
|
|
|