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Dois acordes, um compasso e a troca no três

Quando o dó e o sol dividem o mesmo compasso, cada um ganha dois tempos, e a mão troca exatamente no três da contagem.

Diagrama de um compasso de quatro tempos com o acorde de dó nos tempos 1 e 2 e o de sol nos tempos 3 e 4

Dó nos tempos 1 e 2, sol nos tempos 3 e 4

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O metrônomo estalava a 70 batidas por minuto, um tique de madeira sintética que saía do celular apoiado na estante do teclado. Em cima da cifra impressa, duas letras ocupavam o mesmo trecho de linha: C e, logo depois, G.

A mão direita segurava o acorde de dó, três teclas brancas afundadas ao mesmo tempo, e esperava. Esperava o quê, exatamente? A folha não dizia. Havia dois acordes e um espaço só, e nenhuma seta mostrando quando o primeiro acabava.

A música era Let It Be, a canção que os Beatles gravaram em janeiro de 1969 e lançaram como single em março de 1970. É uma das primeiras que quem estuda teclado sozinho procura, porque anda devagar, fica em dó maior e usa quatro acordes simples.

A cifra da estrofe parece curta. Mas ela esconde um detalhe que trava muita gente na primeira semana: em boa parte dos compassos, dois acordes dividem o mesmo bloco de tempo.

O compasso (o bloco de tempo que se repete ao longo da música) de Let It Be tem quatro tempos. Quatro estalos do metrônomo, contados 1, 2, 3, 4, e de novo 1. Quando aparece um acorde só, ele dura os quatro. Quando aparecem dois, eles repartem a conta.

A divisão mais comum na música popular é a do meio: o primeiro acorde fica com os tempos 1 e 2, o segundo entra no 3 e segue até o 4. A troca cai sempre no mesmo lugar, no terceiro estalo.

Saber disso muda a relação com a cifra. A pergunta deixa de ser onde trocar e vira uma conta: quantos acordes há no compasso. Se são dois, a mão já sabe que a troca está no três, antes mesmo de ouvir a gravação.

Há também a letra. Paul McCartney abre a canção falando de uma Mother Mary que aparece nos tempos difíceis, e muita gente toca a música por anos sem saber de quem ele falava.

A lição de hoje conta o compasso de Let It Be em voz alta, mostra o erro de quem dá um compasso inteiro a cada acorde e coloca a mão esquerda marcando o 1 e o 3 no grave.

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I  A Lição de Hoje

A troca mora no três

A estrofe de Let It Be se organiza em blocos de quatro compassos. No primeiro bloco, os acordes aparecem assim: dó e sol no primeiro compasso, lá menor e fá no segundo, dó e sol no terceiro, fá e dó no quarto.

São oito acordes em quatro compassos. Cada um dura exatamente dois tempos, e a mão troca de posição oito vezes nesse trecho. Parece muita troca, mas todas caem em dois lugares fixos: no 1 e no 3.

O dó de hoje é o acorde mais conhecido do teclado: dó, mi e sol, tocados pelo polegar, pelo médio e pelo mínimo da mão direita, a partir do dó central (o dó que fica no meio do teclado).

O sol pede uma posição vizinha. Em vez de levar a mão inteira para cima, o mínimo fica parado no sol, o médio desce do mi para o ré e o polegar desce do dó para o si. É o acorde de sol com as notas reorganizadas, e a mão quase não sai do lugar.

Com dois acordes no compasso, o primeiro fica com os tempos 1 e 2 e o segundo entra no 3.

O pedagogo suíço Émile Jaques-Dalcroze defendeu em Rhythm, Music and Education (1921) que o ritmo se aprende primeiro no corpo, no passo e na voz, e só depois na leitura. Contar alto enquanto a mão toca segue a mesma ordem: a voz marca o tempo e a mão obedece.

Passo 1: ligue o metrônomo a 70 e conte 1, 2, 3, 4 em voz alta por quatro compassos, sem tocar nada.

Passo 2: toque o dó no 1, segure no 2, e solte no fim do 2. Repita por quatro compassos, só com o dó.

Passo 3: agora toque o dó no 1 e o sol no 3, contando alto. A palavra três sai junto com as três teclas novas.

Passo 4: faça oito compassos seguidos de dó e sol sem parar o metrônomo, e repare em qual número a mão começa a se mexer.

O ponto fino está no Passo 4. A mão não começa a mudar no três: ela sai do dó no fim do dois, nos últimos instantes antes do estalo. Quando o três soa, os dedos já estão pousados no sol.

Essa antecipação pequena é o que separa uma troca limpa de uma troca atrasada. O som do dó corta um pouquinho antes, e ninguém percebe, porque o ouvido está atento ao acorde novo que chega no tempo certo.

 
 

II  O Erro que Trava

Um compasso para cada acorde

O tropeço mais comum com essa cifra aparece no primeiro ensaio. O aluno lê C, G, Am, F e toca cada acorde durante um compasso inteiro, quatro tempos para cada um, como faria numa música com um acorde por bloco.

No teclado, sozinho, a música até soa bonita. Os acordes são os mesmos, na mesma ordem, e nenhuma nota sai errada. O problema só aparece quando entra a gravação ou alguém tenta cantar junto.

A canção anda no dobro da velocidade das trocas do aluno. Quando a gravação já chegou ao segundo compasso, o teclado ainda está no sol do primeiro. Na metade da estrofe, a voz está numa frase e o acorde, em outra.

Quem dá quatro tempos a cada acorde toca a estrofe com o dobro do tamanho e perde a voz no meio.

O erro nasce da leitura da cifra como uma lista. A folha mostra os acordes em sequência e a mão trata cada nome como um bloco cheio, sem contar quantos dividem o mesmo compasso.

Nas cifras com barras, a pista está desenhada: cada compasso fica entre dois traços verticais, e dois nomes entre os mesmos traços querem dizer dois tempos para cada um. Nas cifras de site, sem barras, a pista é a própria música: se o acorde dura mais do que a frase cantada, a conta está dobrada.

Na gravação original, o próprio Paul McCartney toca o piano da introdução, e as trocas caem no 1 e no 3 de cada compasso. Quem toca junto com o disco escuta a divisão da cifra sem precisar ler barra nenhuma.

Correção 1: escreva a estrofe à mão com barras: | C G | Am F | C G | F C |. Dois nomes entre cada par de barras.

Correção 2: toque só a contagem com a mão no colo, falando o nome do acorde no 1 e no 3: dó, dois, sol, quatro, lá menor, dois, fá, quatro.

Correção 3: leve a mesma fala para o teclado, metrônomo a 60. Se a mão ficar presa num acorde até o compasso seguinte, volte à Correção 2 por mais duas passadas.

Quando a fala e a mão chegam juntas no três, a estrofe volta ao tamanho original. Os quatro compassos passam a durar o mesmo que a frase cantada.

 

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III  A Mão Esquerda

O grave no um e no três

A mão esquerda entra com uma nota só por acorde, a nota que dá nome a ele: o dó grave para o acorde de dó e o sol grave para o acorde de sol. É o baixo, a fundação sobre a qual a direita apoia as três teclas.

As duas notas ficam na região grave, uma oitava (a distância de um dó ao próximo, oito teclas brancas) abaixo do dó central. O mínimo esquerdo pousa no dó e o polegar esquerdo pousa no sol, cinco teclas brancas acima.

Com essa posição, a esquerda não viaja. Ela só alterna o dedo que aperta: o mínimo no tempo 1, o polegar no tempo 3. A mão fica parada e o peso passa de um lado para o outro, como uma gangorra.

A esquerda aperta o baixo no 1 e no 3, junto com a troca da direita, e segura cada nota por dois tempos.

O baixo nos tempos 1 e 3 é a marcação mais antiga da música popular. Os pianistas de ragtime do começo do século XX, como Scott Joplin, já faziam a mão esquerda cair com o grave nesses dois tempos, deixando o 2 e o 4 para os acordes curtos.

Aqui a tarefa é mais simples que o ragtime. A esquerda não pula, e não toca nada no 2 nem no 4. O trabalho dela é dar chão às duas trocas da direita, e esse chão faz a troca do três soar decidida.

Há um ganho extra. Com a esquerda no 1 e no 3, o corpo inteiro passa a sentir a divisão do compasso, e a direita para de depender só da contagem falada.

Tempo 1: só a esquerda, metrônomo a 60: dó no 1, sol no 3, contando os quatro tempos em voz alta.

Tempo 2: as duas mãos, só no primeiro compasso: dó grave e acorde de dó no 1, sol grave e acorde de sol no 3.

Tempo 3: o bloco inteiro, | C G | Am F | C G | F C |, com a esquerda tocando a nota que dá nome a cada acorde. Suba para 70 quando as duas mãos chegarem juntas no três por quatro compassos seguidos.

Teste hoje: oito compassos de dó e sol, metrônomo a 70, contando alto. Marque um risco a cada vez que a mão chegar ao sol depois do estalo do três; o esperado é zero riscos na terceira passada. Enquanto conta, repare na primeira linha da letra: quem era a Mother Mary que Paul McCartney pôs na letra de Let It Be?

★ RARO

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