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O arco que junta 2 notas numa só

Duas notas iguais ligadas por um arco viram um som só: toque a primeira, segure a soma dos tempos e deixe a segunda tecla em paz.

Diagrama do teclado com o dó central marcado duas vezes, as notas ligadas que soam como uma só

Dois dós no papel, um som no teclado

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O papel da partitura estalou ao ser dobrado na estante, e o metrônomo começou a bater seco, tique, tique, tique, no canto da mesa. O polegar direito estava pousado no dó central, frio, esperando a primeira batida.

Na pauta havia duas notas iguais, dois dós lado a lado, cada um valendo dois tempos. Entre as cabeças das duas notas corria um arco fino, curvo como uma sobrancelha, desenhado bem rente a elas.

O dedo desceu no primeiro tique. O dó soou. No terceiro tique, o dedo subiu e desceu outra vez, e o segundo dó saiu limpo, bem marcado, no lugar certo da contagem.

Parecia tudo correto. Dois dós, dois tempos cada, quatro tempos no total, nenhuma nota trocada e nenhum atraso.

Só que a música não soou como a gravação. Na gravação, o dó entrava uma vez e ficava, inteiro, atravessando os quatro tiques sem nenhum ataque no meio. Na sala, ele tinha sido dividido em dois pedaços com um soluço na metade.

A diferença estava naquele arco. Ele tem nome no ofício: ligadura de valor (o sinal que soma a duração de duas notas iguais). Quando aparece entre duas notas da mesma altura, ele avisa que a segunda não deve ser tocada. A tecla desce uma vez só e fica apertada pelo tempo das duas juntas.

Quem está começando quase sempre lê o arco como enfeite. O olho procura as cabeças das notas, encontra dois dós e manda o dedo bater dois dós, porque cada cabeça parece pedir um ataque próprio.

A partitura usa esse truque por um motivo prático. Às vezes uma nota precisa durar além do que cabe no espaço que sobra no compasso (a caixinha de tempos entre duas barras verticais). Então o compositor escreve a nota até a barra, escreve a continuação depois dela e amarra as duas com o arco.

A lição de hoje ensina a ler a ligadura, a contar os tempos somados e a segurar o dó central por quatro tempos sem bater a tecla outra vez.

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I  A Lição de Hoje

Dois dós escritos, um dó tocado

A ligadura de valor tem uma regra de três partes, e as três precisam estar presentes. Há um arco curvo, ele liga duas notas vizinhas, e as duas notas ficam na mesma linha ou no mesmo espaço da pauta (as cinco linhas onde as notas são escritas).

Se as notas forem iguais, você toca a primeira e soma as durações. Um dó de dois tempos ligado a outro dó de dois tempos vira um dó de quatro tempos. Um dó de um tempo ligado a um de dois tempos vira um dó de três.

Na prática, a segunda cabeça de nota funciona como uma extensão da primeira. Ela continua desenhada na partitura para mostrar até onde o som vai, mas o dedo não obedece a ela com um novo ataque.

Vale conhecer os nomes das durações que aparecem aqui. A semínima (a nota de cabeça preta com haste) vale um tempo. A mínima (a cabeça branca com haste) vale dois. A semibreve (a cabeça branca sem haste) vale quatro.

Com esses três valores, a conta da ligadura fica simples. Duas mínimas ligadas somam quatro tempos, a mesma duração de uma semibreve, e soam exatamente como ela.

A ligadura não pede uma nota nova: ela pede que a primeira nota continue viva pelo tempo das duas. O arco é uma ordem de esperar com o dedo afundado.

Por que escrever duas mínimas ligadas, se uma semibreve teria a mesma duração? Porque a semibreve nem sempre cabe. Quando a nota começa no meio do compasso, ela atravessa a barra, e a única forma de escrevê-la é cortar em dois pedaços e amarrar com o arco.

Há também partituras que preferem a ligadura dentro do mesmo compasso para deixar visível onde cai cada tempo forte. O leitor enxerga o terceiro tempo marcado pela segunda cabeça e conta com mais segurança.

Para ler sem tropeçar, faça três perguntas cada vez que vir um arco. As notas são iguais? Elas são vizinhas? O arco liga as cabeças das notas, bem rente a elas? Três respostas sim indicam ligadura de valor.

Passo 1: ache o arco e confira se as duas notas estão na mesma linha ou no mesmo espaço da pauta.

Passo 2: some os valores das duas notas e escreva o total em cima do arco, a lápis.

Passo 3: toque só a primeira nota e conte o total em voz baixa, com o dedo parado na tecla.

Com o número escrito acima do arco, o olho para de ver duas notas e passa a ver uma duração só.

 
 

II  O Erro que Trava

O soluço no terceiro tempo

O erro que trava aparece justamente no ponto em que a segunda nota começa. O iniciante conta "um, dois", e no "três" o dedo sobe sozinho e ataca a tecla outra vez, por reflexo.

O reflexo tem origem compreensível. Nas primeiras lições, cada cabeça de nota correspondia a um ataque. O cérebro aprendeu a regra "vi uma nota, aperto uma tecla" e passou a aplicá-la sem consultar o arco.

O resultado é o soluço que a cena da abertura mostrou. A nota que deveria atravessar os quatro tempos ganha um segundo ataque no meio, e a melodia passa a ter um pulso que o compositor não escreveu.

Existe um segundo erro, menos visível. Alguns alunos sabem que não devem tocar a segunda nota, mas soltam a tecla no fim da primeira e ficam esperando em silêncio até o tempo da nota seguinte. O som acaba no tempo dois e o compasso fica com um buraco.

E há quem confunda a ligadura de valor com a ligadura de expressão (o arco longo que abraça várias notas diferentes e pede que elas sejam tocadas sem separação). As duas usam um arco, mas a de expressão liga notas de alturas diferentes, e cada uma delas é tocada.

O teste para separar os dois arcos é olhar as notas nas pontas: alturas iguais pedem um ataque só, alturas diferentes pedem um ataque para cada nota. Na dúvida, quem decide é a altura, nunca o desenho do arco.

Um último engano envolve a contagem. O aluno segura a tecla, mas para de contar quando a segunda cabeça chega, porque acha que a nota terminou. Ele solta no tempo três e perde o quarto tempo inteiro.

Contar em voz baixa resolve quase todos esses tropeços. Quando a boca diz "um, dois, três, quatro" sem pausa, o dedo segue a voz em vez de seguir o desenho das cabeças.

Correção 1: antes de tocar, marque a lápis um X sobre a segunda nota ligada, para lembrar que ela não recebe ataque.

Correção 2: conte todos os tempos da soma sem parar, e só levante o dedo quando a contagem chegar ao último número.

Correção 3: confira as alturas nas pontas do arco; se forem diferentes, a ligadura é de expressão e cada nota é tocada.

Com o X na pauta e a contagem contínua, o dedo aprende a ficar parado no meio da nota longa.

 

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III  A Mão Esquerda

O dó grave que acompanha a nota ligada

A mão esquerda entra hoje no dó três (o dó uma oitava abaixo do dó central). Pouse o mindinho esquerdo, dedo 5, nessa tecla, com a mão relaxada sobre as cinco brancas acima dela.

A direita fica no dó central com o polegar, dedo 1. O indicador, dedo 2, descansa sobre o ré, e o médio, dedo 3, sobre o mi. Essas três teclas formam o trecho que você vai tocar.

O exercício tem dois compassos de quatro tempos. No primeiro, duas mínimas de dó ligadas, que você toca como um dó só de quatro tempos. No segundo, duas mínimas sem ligadura: ré e mi, dois tempos cada.

Comece com a mão direita sozinha e o metrônomo a 60. Toque o dó no tempo 1 e conte até quatro sem levantar o polegar. No tempo 1 do segundo compasso, toque o ré; no tempo 3, o mi.

Agora acrescente a esquerda. No tempo 1 do primeiro compasso, o dó grave desce junto com o dó central, e as duas teclas ficam apertadas pelos quatro tempos.

A esquerda faz aqui um papel de fiscal. Como ela também não pode bater de novo no tempo 3, a mão inteira aprende a ficar parada, e o polegar direito copia a calma do mindinho esquerdo.

Quando as duas mãos seguram juntas, o ouvido escuta uma nota inteira de quatro tempos e o corpo aprende o tamanho real da ligadura.

No segundo compasso, solte o dó grave junto com o dó central, no instante em que o ré entra. A esquerda descansa, e a direita termina sozinha no mi.

Se o polegar direito insistir em bater no tempo 3, diminua o metrônomo para 50 e conte os números com a boca, sem pausa entre o dois e o três.

Tempo 1: metrônomo a 60, só a mão direita, dó de quatro tempos, ré e mi de dois.

Tempo 2: as duas mãos, dó grave e dó central juntos, segurando os quatro tempos sem novo ataque.

Tempo 3: suba para 72 e toque os dois compassos quatro vezes seguidas, sem parar entre elas.

“Quantas vezes o seu polegar tentou bater no terceiro tempo antes de ficar parado?”

Teste hoje: toque o dó central ligado por quatro tempos, cinco vezes seguidas, com o celular gravando o som. Ouça a gravação e conte quantos ataques aparecem em cada dó. O esperado é um ataque por dó; dois em qualquer repetição indica que o dedo ainda bateu no tempo 3.

 
 
A Mão Esquerda Acorda: oito trilhos, um por dia: A fundamental sozinha, A oitava que dá peso, O pulso de quatro, O baixo alternado, A troca sem olhar, A nota de passagem, O baixo fora do tempo, O trilho que segura a música inteira. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

No texto, quando duas mínimas (notas de dois tempos cada) aparecem ligadas por uma ligadura de valor, quantos tempos o dó soa no total?

ADois tempos
BTrês tempos
CQuatro tempos
DSeis tempos

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