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O Atirei o Pau no Gato oito teclas abaixo

A mesma frase de sete notas, tocada pela esquerda com o dedo 5 no dó grave, ganha peso e muda de caráter.

Teclado com a esquerda do dó ao sol graves e a direita do dó ao sol centrais

Dó a sol graves, dedos 5 a 1 na esquerda

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O sobrinho de seis anos sobe no banco do teclado num domingo à tarde e pede a música do gato. Ele quer ouvir o Atirei o Pau no Gato, a cantiga que aprendeu na escola.

A mão direita do tio já sabe a frase de cor. Sete notas, todas entre o dó central e o sol logo acima, sem uma tecla preta no caminho. A criança canta junto, desafina no fim e ri.

Na terceira vez, o menino aperta uma tecla lá no canto esquerdo, a mais grave que alcança, e pede: agora toca lá embaixo.

O pedido parece brincadeira de criança. Ele toca num ponto que quase todo método para iniciante pula. A melodia sempre foi assunto da mão direita, e a esquerda ganhou o papel de acompanhar, com dois ou três sons graves por compasso.

Quando a esquerda toca a melodia inteira, oito teclas brancas abaixo, a cantiga não fica só mais grave. Ela muda de personagem. O gato da escola vira um gato pesado, de passo lento, e a frase que soava leve ganha um tom de história contada à noite.

O ouvido percebe a mudança antes de qualquer explicação. Uma nota grave faz a corda do piano, ou o alto-falante do teclado, vibrar mais devagar, e o som chega ao ouvido mais encorpado, com mais camadas por baixo da nota principal.

Para a esquerda, o exercício tem um ganho escondido. Ela passa a ler o desenho de uma melodia, nota por nota, e deixa de ser a mão que só marca o chão. A melodia já decorada tira do caminho a dúvida de qual nota vem depois: sobra atenção para o dedilhado e para o ouvido.

O tio tenta atender o pedido e trava no primeiro sol. A mão esquerda, colocada no lugar da direita, não usa os mesmos números de dedo. O polegar, que na direita ficava no dó, agora precisa estar no sol.

A primeira seção monta a mão esquerda no lugar certo, com o dedo 5 no dó grave, e explica por que a numeração dos dedos se espelha.

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I  A Lição de Hoje

Cinco teclas graves e os dedos ao contrário

A resposta de ontem

O que Seinfeld disse em 2014 sobre o método do X vermelho?

Respondeu que a ideia não era dele. Numa sessão de perguntas abertas no Reddit, em junho de 2014, Jerry Seinfeld chamou a corrente de X de uma não ideia boba, que não era sua e pela qual recebia o crédito. O método ficou famoso pelo texto de Brad Isaac no Lifehacker, em 2007, que contava um conselho ouvido do humorista.

A frase do gato cabe em cinco teclas brancas: dó, ré, mi, fá e sol. Na mão direita, o polegar fica no dó central e cada dedo ganha uma tecla, até o mínimo no sol. Essa posição se chama posição de cinco dedos, e é a primeira que todo método ensina.

A melodia da primeira frase desce do sol até o ré e volta subindo até o sol: sol, fá, mi, ré, mi, fá, sol. Na direita, os dedos seguem 5, 4, 3, 2, 3, 4, 5. A lição acrescenta um dó longo no fim, como pouso, tocado pelo polegar.

Para a esquerda, a frase desce uma oitava (a distância de oito teclas brancas, do dó central ao dó de baixo). As cinco teclas passam a ser o dó grave, o ré, o mi, o fá e o sol logo abaixo do dó central.

Aqui entra o espelho. As duas mãos numeram os dedos do mesmo jeito, do polegar como 1 ao mínimo como 5. Só que na esquerda o polegar fica do lado das notas agudas, e o mínimo do lado das graves. O dedo 5 vai para o dó grave e o polegar vai para o sol.

A frase do gato, na esquerda, vira outra sequência de números: sol com o 1, fá com o 2, mi com o 3, ré com o 4, e a volta com 3, 2 e 1. O dó de pouso fica com o dedo 5, o mais fraco da mão, que precisa chegar firme no fundo da tecla.

As duas mãos tocam as mesmas notas com números de dedo opostos: o 5 da esquerda está no dó grave e o 5 da direita, no sol.

O cientista alemão Hermann von Helmholtz descreveu, no livro Sobre as Sensações do Tom, de 1863, que cada nota de um instrumento soa junto com uma série de notas mais agudas e mais fracas, os harmônicos. Nas notas graves, essa série cabe inteira dentro do que o ouvido escuta, e o som parece mais cheio.

A comparação desta lição usa a mesma frase nas duas alturas, então o único detalhe que muda é o registro. O ouvido não precisa decifrar melodia nova e fica livre para notar o peso.

1. Mão direita sozinha, frase inteira, dedos 5, 4, 3, 2, 3, 4, 5 e o 1 no dó de pouso.

2. Mão esquerda sozinha, uma oitava abaixo, dedos 1, 2, 3, 4, 3, 2, 1 e o 5 no dó grave.

3. As duas versões em seguida, sem pausa, a 60 batidas por minuto no metrônomo.

Antes de começar, vale olhar a mão parada sobre as teclas. Cinco dedos curvados, cada um sobre a sua tecla branca, sem nenhum precisar esticar. Se o mínimo está no dó grave, a mão já está no lugar.

 
 

II  O Erro que Trava

O dedo 5 que chega mole no dó

O tropeço mais comum desta lição aparece na última nota. O dedo 5 da esquerda pousa no dó grave sem força, a tecla desce pela metade, e o pouso da frase sai fraco, quase sumido debaixo das outras notas.

Na mão direita, o dó de pouso fica com o polegar, o dedo mais forte. Na esquerda, o mesmo dó cai no mínimo. O ouvido espera um final sólido e recebe um final tímido, e a comparação entre as duas versões fica injusta.

O mínimo tende a desabar na primeira falange, a do meio, e entrar na tecla com a ponta dobrada para trás. A força some no caminho, porque o dedo vira uma mola em vez de uma coluna. É o mesmo dedo que fica preguiçoso ao digitar no celular.

A correção passa pela curva. O dedo 5 entra na tecla com a ponta, curvado como os outros, e o pulso fica na altura das teclas, sem cair. A mão inteira inclina um pouco para o lado do mínimo no instante do dó, e o peso do braço desce junto.

O sinal de acerto é auditivo. Toque o dó de pouso com o polegar da direita e, em seguida, o dó grave com o mínimo da esquerda. As duas notas precisam soar com o mesmo volume, uma oitava de distância. Se a grave sai mais fraca, o dedo ainda está mole.

O pouso da frase grave depende do dedo mais fraco: curvado e com o peso do braço, o mínimo segura o final.

A segunda falha vem logo depois. Com a atenção no dedilhado novo, a esquerda corre e chega ao sol antes do tempo. A melodia continua certa nas notas e errada no ritmo, e a comparação com a direita perde a base.

O metrônomo resolve a pressa. A 60 batidas, cada nota da frase recebe um tempo, e o dó de pouso recebe dois. Se a esquerda tropeça, o metrônomo desce para 50, e a frase inteira se repete devagar até sair limpa três vezes seguidas.

Um terceiro sinal fica escondido no ombro. Quem se concentra no dedo fraco costuma subir o ombro esquerdo sem perceber. A cada repetição, um olhar rápido no espelho ou na tela do celular confere se o ombro está solto e o cotovelo afastado do corpo.

Quando o mínimo chega firme, a comparação volta a ser justa. As duas versões soam com o mesmo volume e o mesmo ritmo, e a única diferença restante é a altura, o detalhe que o ouvido precisa isolar.

 

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III  A Mão Esquerda

A mesma frase com outra cor

Com as duas versões firmes, começa a escuta comparativa. A direita toca a frase uma vez, a esquerda toca a mesma frase em seguida, e a pausa entre elas dura dois tempos do metrônomo, o espaço para o ouvido guardar a primeira versão.

A diferença se nota por três pistas. A primeira é o peso: a versão grave parece ocupar mais espaço no quarto, como se a frase tivesse ganhado volume, mesmo com a força dos dedos igual. É o efeito dos harmônicos somados.

A segunda pista é o caráter. A cantiga aguda soa como brincadeira de pátio, e a grave soa séria, quase solene. Compositores usam esse recurso o tempo todo: entregam o tema às notas graves quando querem que a mesma melodia soe mais escura ou mais firme.

A terceira pista é a clareza. No grave, as notas vizinhas ficam mais próximas umas das outras no ouvido, e o ré e o mi podem soar um pouco embolados. Por isso a esquerda precisa soltar cada tecla antes de apertar a seguinte, sem deixar duas notas soando juntas.

O registro grave não muda as notas da frase, muda o caráter dela: a mesma cantiga passa de brincadeira a história contada à noite.

Para treinar o ouvido, a escuta pode virar jogo. Grave as duas versões no celular, em ordem trocada, e escute de olhos fechados no dia seguinte. A tarefa é dizer qual veio primeiro, a aguda ou a grave, e descrever cada uma com uma palavra.

As palavras anotadas formam um pequeno dicionário do ouvido. Leve, alegre, fino de um lado da folha; pesado, escuro, encorpado no outro. Com o tempo, a esquerda deixa de soar como a mão secundária e passa a ser uma cor que o aluno escolhe.

1. Direita toca a frase, dois tempos de pausa, esquerda toca a mesma frase uma oitava abaixo.

2. Uma palavra anotada para cada versão, logo depois da segunda.

3. Gravação das duas versões no celular, para ouvir de olhos fechados no dia seguinte.

O sobrinho do domingo descreveria sem esforço: o gato de cima é filhote, o de baixo é gato velho. A descrição de criança acerta o ponto. O grave dá idade e peso à frase, e o aluno ganha um modo de mudar o clima de qualquer melodia sem aprender nota nova.

Teste hoje: toque o Atirei o Pau no Gato com a direita, depois com a esquerda oito teclas abaixo, o dedo 5 firme no dó grave, e anote numa folha uma palavra para cada versão.

 
 
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