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ED 024

O cotovelo abaixo das teclas

A altura do banco decide se o antebraço fica paralelo ao chão, e o mínimo que falha aos dez minutos costuma estar pagando por três centímetros.

Diagrama das teclas com a posição de cinco dedos em dó, dedos 1, 2, 3, 4 e 5 sobre dó, ré, mi, fá e sol, e a linha do pulso na altura das teclas brancas

Cinco dedos em dó, pulso na linha das teclas

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Em 1953 o pai de Glenn Gould serrou as pernas de uma cadeira dobrável de casa e deixou o assento a trinta e cinco centímetros do chão. Gould carregou aquela cadeira para todos os palcos e estúdios pelo resto da carreira, e tocava com o queixo quase na linha do teclado.

O detalhe que costuma passar batido nessa história é que a altura foi escolhida, medida e defendida. Ele sentava baixo de propósito, para puxar os dedos em vez de empurrar, e organizou o resto da técnica em volta daquela decisão. A altura do assento era parte do instrumento para ele, não um acaso da sala.

Na casa de quem está começando a altura quase nunca é escolhida. O teclado vai para a mesa que existe, e a pessoa senta na cadeira que sobrou do jantar. Um banco de piano fica entre quarenta e oito e cinquenta e dois centímetros; uma cadeira comum de sala de jantar fica entre quarenta e cinco e quarenta e sete, e as mesas de escritório ainda somam sete ou oito centímetros a mais que uma mesa de refeição.

A soma das duas folgas dá sempre no mesmo lugar. O teclado sobe, o corpo desce, e o cotovelo termina alguns centímetros abaixo da linha das teclas brancas.

O número do assento importa bem menos que o ângulo que ele produz no braço. Com a altura certa, o antebraço sai do cotovelo e chega à mão praticamente paralelo ao chão, e o pulso fica na mesma linha das teclas, sem subida nem descida no caminho.

Quando o cotovelo cai abaixo dessa linha, o antebraço passa a subir em direção ao teclado, e o pulso precisa se dobrar para cima para pousar os dedos na horizontal. A mão trabalha inclinada, o peso do braço deixa de descer em linha reta e a ponta do dedo perde o apoio que vinha de trás.

O primeiro dedo a reclamar é sempre o mínimo, porque ele é o mais fino da fila e o que menos aguenta trabalhar sem o braço atrás. Antes dos dez minutos ele começa a falhar, a afundar a tecla pela metade e a produzir um som mais fraco que os outros quatro.

A lição de hoje mede essa altura com o próprio corpo, sem trena, e depois usa cinco notas para provar que o ajuste mudou o som.

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I  A Lição de Hoje

A régua do cotovelo

As teclas do exercício de hoje: dó, ré, mi, fá e sol, um dedo em cada.

Antes de tocar, monte a posição de cinco dedos. Mão direita com o polegar no dó central, e um dedo em cada tecla branca seguinte: indicador no ré, médio no mi, anular no fá e mínimo no sol, os dedos 1, 2, 3, 4 e 5 lado a lado.

Deixe os cinco dedos apoiados nas teclas sem afundar nenhuma. A mão fica curva, como se segurasse uma laranja pequena, e a ponta de cada dedo encosta na tecla.

Agora vem a medida, e ela usa o próprio braço como régua. Com os dedos apoiados, olhe para o seu braço de lado, de preferência num espelho ou na câmera frontal do celular apoiada na mesa.

Você está procurando duas linhas. A primeira é o antebraço, do cotovelo até o pulso, e ela deve estar praticamente paralela ao chão. A segunda é a linha que vai do pulso à ponta dos dedos, e ela deve continuar a primeira, sem degrau para cima nem para baixo.

Cotovelo na altura das teclas, antebraço paralelo ao chão e pulso sem degrau: são três checagens que cabem em quinze segundos e valem mais que qualquer exercício de hoje.

Se o cotovelo estiver abaixo da linha das teclas brancas, o assento está baixo demais para essa mesa. A correção é subir você, não descer o teclado, e ela não custa nada: uma almofada firme, dois ou três livros grossos empilhados no assento, uma toalha dobrada em quatro.

Suba de pouco em pouco e refaça a checagem a cada acréscimo. A diferença entre errado e certo costuma ser de dois a quatro centímetros, o que é bem menos do que a maioria imagina antes de medir.

Confira também o que aconteceu com os pés depois de subir. Eles precisam continuar apoiados inteiros no chão, e se ficaram pendurados, um caderno grosso ou uma caixa fechada embaixo deles resolve, porque perna solta faz o corpo procurar apoio nos braços.

Cuide da distância também, que muda junto com a altura. Sentado, com os dedos na posição, deve sobrar espaço para uma mão aberta entre a barriga e a borda da mesa, e o cotovelo fica ligeiramente à frente do tronco, nunca colado nas costelas.

Fixada a altura, toque as cinco notas em ordem, uma de cada vez, bem devagar: dó, ré, mi, fá, sol, um dedo em cada. Depois volte descendo, sol, fá, mi, ré, dó, sempre com o pulso quieto na linha das teclas.

Faça essa subida e descida oito vezes, sem pressa e sem metrônomo. O objetivo aqui não é velocidade nenhuma, é sentir que cada dedo desce e o braço fica no lugar.

 
 

II  O Erro que Trava

O pulso que sobe pra compensar

Com o assento baixo, o corpo não desiste de tocar: ele improvisa. O pulso sobe alguns centímetros acima da linha das teclas, a mão fica pendurada nele, e os dedos passam a bater de cima para baixo sem nenhum peso de braço atrás deles.

O ajuste é automático e ninguém percebe fazendo. Como a ponta dos dedos precisa chegar na horizontal e o cotovelo está baixo, a única articulação livre para corrigir o ângulo é o pulso, e ele resolve o problema de geometria sozinho.

O preço aparece no som antes de aparecer no corpo. As cinco notas saem irregulares, com o dó e o ré cheios e o sol fraco, porque o polegar e o indicador ainda têm massa própria e o mínimo depende do braço que ficou para trás.

O segundo preço aparece na resistência. Com o pulso levantado, os tendões que passam por ele trabalham dobrados o tempo todo, e a mão cansa numa fração do tempo, o que explica a queda de força antes dos dez minutos.

Existe um teste rápido que expõe o desvio sem espelho. Toque as cinco notas e, no meio da sequência, pare com um dedo afundado e olhe para o pulso: se dá para apoiar uma moeda deitada em cima dele, a linha está certa; se ele está inclinado como uma ladeira, subiu.

Um segundo teste usa o toque em vez da vista. Toque só o sol com o dedo mínimo, dez vezes, e repare se você precisa de um empurrão de pulso a cada nota. Dedo que só desce com ajuda do pulso é dedo sem braço atrás.

Josef Hofmann escreveu a regra da altura num livro de perguntas de aluno, e ela continua sendo o critério mais simples que existe.

“A altura do assento deve ser tal que o antebraço fique no nível horizontal do teclado.”

Josef Hofmann, Piano Playing: With Piano Questions Answered, 1920

A correção tem uma ordem que evita retrabalho. Primeiro a altura do assento, depois a distância até o teclado, e só então o pulso, porque tentar consertar o pulso com o assento errado é pedir que ele fique reto numa posição em que ele não alcança as teclas.

Cuidado com a correção pelo lado oposto, que é o erro seguinte. Quem ouve falar em pulso baixo às vezes afunda o pulso abaixo da linha das teclas e apoia a mão na madeira, e aí o dedo perde a curva, a articulação trava e o som fica abafado.

O ponto certo é o meio termo sem drama. Pulso na linha das teclas, nem pendurado para cima nem afundado, com o braço solto do ombro e o peso descendo em linha reta do cotovelo até a ponta do dedo que toca.

Guarde uma consequência prática de tudo isso. Ajustar a altura não é preparação para o estudo, é parte do estudo: quinze segundos de checagem no começo mudam o som das cinco notas mais do que dez minutos de repetição na altura errada.

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III  A Mão Esquerda

O mínimo esquerdo no seu lugar

A mão esquerda paga a conta da altura errada em dobro, e o motivo é a posição do corpo. O tronco fica um pouco voltado para o lado direito na maioria das pessoas, e a esquerda trabalha mais afastada, com o braço mais estendido e menos peso disponível.

Monte a posição espelhada para conferir. Mínimo esquerdo, o dedo 5, no dó uma oitava abaixo do dó central, e os outros quatro em fila subindo: anular no ré, médio no mi, indicador no fá e polegar no sol.

Refaça as mesmas três checagens desse lado. Cotovelo esquerdo na altura das teclas, antebraço paralelo ao chão, pulso sem degrau, e repare se o ombro esquerdo subiu em direção à orelha enquanto você montava a posição.

Toque as cinco notas com a esquerda, subindo do dó ao sol e voltando, oito vezes bem devagar. O mínimo esquerdo abre a sequência e é o dedo mais fraco da mão inteira, então ele é o melhor termômetro do ajuste que você acabou de fazer.

Se o dó grave sair mais fraco que as outras quatro notas, o problema raramente é força de dedo. Deixe o braço mais solto do ombro, sinta o peso do antebraço descendo sobre o dedo 5 e toque de novo, sem apertar mais.

Minuto 1 a 2: a checagem completa das três linhas, com o celular ou o espelho de lado, ajustando a almofada ou os livros até o cotovelo chegar na altura das teclas brancas.

Minuto 3 a 5: mão direita nas cinco notas, dó ao sol e de volta, oito vezes lentas, com atenção só ao pulso quieto na linha das teclas.

Minuto 6 a 8: mão esquerda nas cinco notas espelhadas, oito vezes, com o ombro baixo e o peso do antebraço caindo sobre o mínimo no dó grave.

Minuto 9 a 10: o teste da irregularidade. Grave as cinco notas de cada mão com o celular e escute uma vez só, procurando se a última nota de cada subida saiu com o mesmo volume das outras quatro.

Vale marcar a altura antes de levantar, porque o ajuste some quando alguém mexe na cadeira. Uma fita colorida na perna, ou a almofada certa guardada em cima do banco, devolve a posição amanhã.

Termine olhando para as mãos ainda apoiadas nas cinco teclas. Elas devem estar curvas, o pulso na linha das teclas, os cotovelos soltos ao lado do corpo, e só então você levanta os dedos e fecha a lição.

"O seu cotovelo hoje ficou na altura das teclas ou abaixo delas?"

 
 
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Dez minutos hoje. Domingo a casa reconhece.

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