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O médio cruza o polegar no lá
A esquerda sobe a escala de dó com os dedos 5, 4, 3, 2 e 1, e o médio passa por cima do polegar na sexta nota para terminar a subida.
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Escala de dó na esquerda, o médio cruza no lá
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A tecla do dó grave afunda com um baque mais surdo que a do dó central, e a ponta do dedo mínimo esquerdo sente o feltro parar bem mais fundo do que esperava. O som demora um instante a mais para encher a sala, e a mão fica parada ali, com o polegar apontado para a direita, sem saber o que fazer com os outros quatro dedos.
A mão esquerda passa os primeiros meses do estudo tocando uma nota por compasso, presa embaixo da melodia, quase sem andar pelo teclado. Quando ela finalmente sobe uma escala inteira, o estranhamento não vem das notas, que são as mesmas sete brancas de sempre.
Vem da numeração, que corre ao contrário. Na esquerda, o mínimo ocupa a nota mais grave e o polegar ocupa a mais aguda, então subir a escala significa começar pelo dedo 5 e ir descendo a contagem, 5, 4, 3, 2, 1, enquanto o som sobe. Número e altura andam em sentidos opostos, e a cabeça leva alguns dias para parar de traduzir cada passo.
Cinco dedos, oito notas. A conta não fecha por três notas, e é por essa razão que existe um cruzamento no meio do caminho: em algum ponto a mão precisa recomeçar a contagem sem interromper o som, com um dedo passando por cima do outro enquanto a nota anterior ainda soa.
O lugar desse recomeço na escala de dó da mão esquerda é a sexta nota. O polegar toca o sol, o dedo médio sobe por cima dele e cai no lá, e a mão inteira se reorganiza a alguns centímetros de onde estava, com três dedos ainda livres para fechar a subida em si e dó.
Quem já tocou essa escala com a mão direita reconhece o desenho de longe, porque o problema se repete espelhado no lado oposto do teclado, com o braço andando para o outro sentido e o cruzamento caindo num degrau diferente da subida.
A lição de hoje monta a subida da esquerda dedo por dedo e trata o cruzamento como movimento de braço, não como acrobacia de dedo solto.
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I A Lição de Hoje
Cinco dedos e um cruzamento
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As teclas de hoje: a escala de dó maior na mão esquerda, do dó ao dó.
Comece a subida com o dedo mínimo esquerdo no dó grave, uma oitava abaixo do dó central. A sequência de notas é dó, ré, mi, fá, sol, lá, si e dó, com os dedos 5, 4, 3, 2, 1, 3, 2 e 1 nessa ordem exata. |
Toque só as cinco primeiras notas e pare. Dó com o mínimo, ré com o anular, mi com o médio, fá com o indicador e sol com o polegar, cada dedo entrando uma vez, sem repetir nenhum, com a mão inteira parada no lugar e só os dedos trabalhando.
Repare no que sobrou depois do sol. Nada. Os cinco dedos já foram usados, a escala está na metade, e o polegar está apoiado na nota mais aguda que a mão alcança nesta posição, com os outros quatro dedos empilhados à esquerda dele.
A saída é passar o dedo médio por cima do polegar. Com o sol ainda soando, levante o médio, leve ele por cima do dorso do polegar e afunde o lá, a branca seguinte, deixando a mão inteira acompanhar o gesto para a direita.
A subida da esquerda gasta os cinco dedos antes da metade da escala. O médio passa por cima do polegar no lá e devolve à mão três dedos livres para terminar em si e dó. |
O cruzamento sai bem quando o cotovelo participa. Solte o braço do ombro e deixe o cotovelo se afastar um pouco do corpo no momento do lá, porque uma mão que gira só no pulso obriga o médio a se esticar e a nota sai fraca e atrasada.
Treine as duas notas do cruzamento isoladas, quinze vezes seguidas, devagar. Toque o sol com o polegar, cruze o médio por cima e toque o lá, volte o polegar ao sol, e faça o caminho de ida e volta como um balanço regular, sem parar entre uma repetição e outra.
Agora toque a subida completa três vezes, com dois segundos entre as notas, contando em voz alta os dedos 5, 4, 3, 2, 1, 3, 2, 1. Falar o número enquanto o dedo desce resolve metade da confusão da numeração invertida em poucos minutos.
Faça a descida em seguida, que é onde o movimento se inverte. Volte de dó a dó com os dedos 1, 2, 3, 1, 2, 3, 4 e 5, e repare que agora o polegar passa por baixo do médio no fá para liberar espaço à mão que desce.
Termine tocando subida e descida seis vezes seguidas, sem pausa entre uma e outra, tratando as dezesseis notas como uma frase só. Cada volta completa grava a posição do cruzamento nos dois sentidos e vale mais que dez subidas isoladas.
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II O Erro que Trava
O buraco de tempo no lá
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O erro que trava a subida da esquerda é o buraco de silêncio que aparece exatamente no lá. A mão chega no polegar, para para se organizar, o médio procura a tecla com calma, e a escala perde o passo bem no meio do caminho. |
Esse buraco quase nunca é percebido por quem toca. O ouvido de dentro preenche a falta sozinho, porque a cabeça sabe qual nota vem em seguida, e a escala parece regular mesmo quando tem um vão de meio segundo dentro dela.
Existe um jeito simples de flagrar o defeito. Toque a subida contando um número por nota em voz alta e em velocidade constante, sem acelerar nem desacelerar a contagem: se a sexta nota chegar depois do seu próprio número, o vão está lá.
O segundo sintoma aparece na quina da tecla. Quem cruza o médio tarde demais bate com a lateral do dedo na borda da branca antes de afundar, e sai aquele ruidinho seco de unha em madeira meio segundo antes da nota.
Carl Philipp Emanuel Bach já tratava o polegar como a peça que organiza a mão inteira, e não como um dedo qualquer da fila.
“O polegar, antes tido por inútil, é o dedo principal, pois sem ele nenhuma mudança de posição da mão seria possível.” > Carl Philipp Emanuel Bach, Ensaio sobre a Verdadeira Arte de Tocar Instrumentos de Teclado, 1753 |
A correção começa cedo, três notas antes do problema. Enquanto o indicador afunda o fá, o médio já deve estar dobrando para cima e se aproximando da posição do lá, de modo que ele chegue à tecla no instante em que o polegar terminar de tocar.
Treine o exercício do dedo preparado, com os olhos no médio. Toque fá e sol devagar, dedos 2 e 1, e observe o dedo médio subindo e ficando parado no ar por cima do polegar enquanto o sol ainda soa, apontado para o lá como quem já sabe onde vai pisar.
Depois faça o teste da nota sustentada. Toque o sol e segure a tecla afundada com o polegar, cruze o médio e toque o lá sem levantar o polegar, e escute as duas notas soando juntas por um instante: quem consegue essa sobreposição não tem mais buraco nenhum na subida.
Repare que o teste responde na hora e sem equipamento. Se o polegar precisar sair do sol para o médio alcançar o lá, o braço não acompanhou o movimento e o cotovelo continua colado ao corpo.
Guarde a consequência que vale para as escalas seguintes. Toda escala maior da mão esquerda usa um cruzamento parecido em algum ponto da subida, e a mão que resolve o gesto na escala de dó chega nas outras tonalidades com o movimento já pronto.
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