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O órgão escuta o dedo que atrasa
Dois acordes tocados uma vez com timbre de órgão revelam a nota velha que o piano apaga sozinho, e a mão volta ao piano sabendo soltar.
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Dó maior com o mi embaixo, pronto pro fá
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O fá grave continua soando reto, sem perder força, enquanto o dedo fica parado em cima da tecla. Dez segundos depois, a nota tem o mesmo volume do primeiro instante, e só some quando o dedo sobe.
Quem fez aquele som foi a posição de órgão do teclado, escolhida por acaso num giro do botão de timbres (a cor do som que o instrumento imita). Na posição 001, a que a maioria dos teclados de entrada carrega ao ligar, mora o piano, e o piano faz o contrário: a nota nasce forte no toque e vai caindo sozinha, mesmo com a tecla presa até o fundo.
Essa queda parece um detalhe de fábrica e esconde um hábito de quase todo iniciante. Na troca de acorde, um dedo fica preso na tecla antiga meio clique além da conta. No piano, a nota velha já perdeu força quando a nova entra, e o ouvido mal percebe a sobra.
Laurens Hammond, engenheiro que fabricava relógios elétricos em Chicago, patenteou em 1934 um órgão que tirava o som de rodas fônicas (discos de metal recortado girando diante de ímãs) e o pôs à venda no ano seguinte. Enquanto a tecla fica abaixada, o circuito da roda segue ligado e o som não enfraquece; quando a tecla sobe, ele corta seco.
O timbre de órgão do seu teclado imita esse comportamento. Som reto e corte seco transformam o instrumento num delator de dedos: cada nota dura exatamente o tempo que o dedo ficou na tecla. Se o dedo sai tarde, as duas notas soam juntas, com a mesma força, e a sobreposição vira um acorde sujo que dura até o dedo largar.
Para usar esse delator, ninguém precisa trocar de instrumento. Basta girar o botão, tocar um trecho curto uma única vez com o som de órgão e voltar ao piano, agora com o ouvido treinado para escutar o que a queda escondia.
A lição abaixo monta esse trecho, dois acordes da mão direita, e marca o clique exato em que cada dedo sobe.
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I A Lição de Hoje
Dois acordes e o clique da soltura
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O trecho cabe em dois acordes, dó maior e fá maior, os dois logo acima do dó central, e foi escolhido para testar a soltura no timbre que imita o órgão Hammond. Na troca, um dedo segura, um dedo anda e um dedo é trocado por outro, e é nessa troca de dedo que a sobra aparece.
A tecla velha sobe exatamente quando a nova desce. No órgão, qualquer fração de tempo entre as duas vira som. |
Primeiro, ache o dó central: a branca logo à esquerda do par de pretas mais perto do meio do teclado. Suba duas brancas e chegue ao mi. Ali fica o polegar direito.
O dó maior da lição é uma inversão (o mesmo acorde com as notas empilhadas em outra ordem): polegar no mi, dedo 2 no sol, mindinho no dó de cima. Entre o sol e o dó existe um intervalo de quarta (a distância de quatro brancas contando as duas pontas), e por essa razão o dedo 2 cuida do sol e o 3 fica livre.
O fá maior entra na posição fundamental, com as notas fá, lá e dó. O polegar sobe uma branca, do mi para o fá. O mindinho fica parado no dó de cima. O sol é largado pelo dedo 2, e o lá é tocado pelo dedo 3.
Essa passagem do dedo 2 para o dedo 3 é o ponto fraco da mão. Como são dedos diferentes, nada obriga o 2 a subir quando o 3 desce, e o sol pode continuar preso embaixo do lá.
Agora o timbre. Gire o seletor até um órgão: o visor mostra nomes como Jazz Organ ou Church Organ (órgão de jazz, órgão de igreja). Prefira o de jazz, porque o de igreja costuma vir com eco longo, que esconde a soltura tanto quanto a queda do piano.
“Não percas nenhuma ocasião de praticar no órgão: não há instrumento que castigue tão depressa a impureza e o desleixo, na composição e no toque.” Robert Schumann, Regras de vida e de música para jovens músicos, 1850 |
Robert Schumann escreveu a regra para quem tinha acesso a um órgão de igreja. O botão de timbres põe a mesma cobrança dentro de casa, com um giro.
Passo 1: no timbre de órgão, arme o dó maior e segure por quatro cliques de metrônomo a 50. No quinto clique, troque para o fá maior e segure mais quatro.
Passo 2: repita a troca oito vezes, prestando atenção só ao instante do quinto clique. Se ouvir sol e lá juntos, o dedo 2 subiu tarde.
Passo 3: volte ao piano, toque as mesmas oito trocas a 50 e compare o que o ouvido encontra agora.
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II O Erro que Trava
A nota velha que o piano apaga
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O erro que trava é soltar pelo tato do dedo seguinte, e não pelo tempo. O iniciante só levanta a tecla antiga depois de sentir a nova afundar, e esse atraso se repete em cada troca da música.
No piano, a sobra existe, só que chega fraca demais para o ouvido notar. O dedo aprende que atrasar não custa nada. |
A explicação está no mecanismo. A tecla abaixada mantém o abafador (o feltro que cala a corda) levantado, e a corda vibra livre. Só que o martelo bateu uma vez só, e a corda perde energia a cada vibração. Quando o lá entra, o sol já soa bem mais baixo que no começo.
No órgão, o sol preso soa com a força do primeiro instante. Sol e lá ficam a um tom de distância, e as duas notas juntas produzem um batimento áspero, como um zumbido que treme. A sobra que o piano esconde aparece inteira, e dura o tempo exato do atraso.
O hábito cobra a conta mais tarde, fora do órgão. Numa melodia ligada, o legato (em italiano, ligado: as notas encostadas umas nas outras, sem buraco nem sobra), o dedo que atrasa borra cada passagem. Com o pedal de sustentação abaixado, o atraso ainda soma notas que não deviam ficar.
Existe também o erro contrário, e o órgão entrega os dois. Quem aprende a temer a sobra começa a soltar cedo demais, e entre o sol e o lá surge um buraco de silêncio. No piano o buraco some sob a nota que ainda cai; no órgão ele corta a frase ao meio.
O alvo fica entre os dois: o dedo 2 sobe no mesmo movimento em que o dedo 3 desce, como uma gangorra. Nem sobra, nem buraco.
Correção 1: no órgão, a 50, diga "troca" em voz alta no quinto clique e faça o dedo 2 subir junto com a palavra. Oito vezes.
Correção 2: exagere de propósito. Faça quatro trocas soltando cedo, para ouvir o buraco, e quatro soltando tarde, para ouvir o batimento. O ouvido passa a reconhecer os dois extremos.
Correção 3: busque a gangorra: oito trocas sem batimento e sem buraco. Depois volte ao piano e toque as mesmas oito a 60.
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