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Para Elisa acaba onde ninguém pratica
A cadência que fecha a primeira parte, cinco teclas brancas, e o método que troca o recomeço do zero pelo recomeço do compasso errado.
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Cadência final: mi, lá, dó, si, lá
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O dedo escorrega na tecla morna, a nota sai errada, e a mão volta sozinha ao compasso 1 antes que o ouvido termine de reclamar. O banco de madeira range com o corpo indo para trás, o metrônomo segue batendo sem ninguém, e a abertura de Para Elisa, de Ludwig van Beethoven, recomeça pela vigésima vez na mesma tarde.
A peça tem data e história de gaveta. Beethoven escreveu no autógrafo a data de 27 de abril de 1810 e guardou a folha. A bagatela nunca saiu impressa enquanto ele viveu. Em 1867, o pesquisador alemão Ludwig Nohl imprimiu a partitura numa coletânea de inéditos e contou ter copiado o manuscrito do acervo de Babette Bredl, em Munique. O autógrafo desapareceu em seguida e segue sem paradeiro, o que deixa a edição de Nohl como única testemunha do texto.
A quem a música foi dedicada continua sem resposta fechada. Nohl leu Elise no alto da folha e imprimiu o título assim. Biógrafos do século XX propuseram duas candidatas: Therese Malfatti, aluna de Beethoven que recebeu o manuscrito em herança, e a cantora Elisabeth Röckel, chamada Elise por amigos próximos. Sem o autógrafo para conferir a caligrafia, as três leituras seguem no mesmo patamar de suposição.
O destino da peça tem contorno nítido: a abertura entrou no repertório de todo estudante de teclado, e a maioria trava no mesmo lugar. Os oito primeiros compassos saem lisos, a mão os conhece de cor, e a primeira parte termina num punhado de compassos que quase ninguém tocou vinte vezes seguidas. A causa mora na rotina de estudo, e tem um gesto único por trás: o retorno automático ao começo a cada tropeço.
A lição de hoje monta justamente o fecho dessa primeira parte, cinco teclas brancas com a mão direita parada no lugar, e entrega o procedimento que troca o retorno ao compasso 1 pelo retorno ao compasso do tropeço.
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I A Lição de Hoje
Cinco brancas fecham a primeira parte
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As teclas de hoje: mi, lá, dó e si, todas brancas, na mão direita, com o polegar apoiado acima do dó central.
Ponha o polegar no mi que fica duas teclas brancas acima do dó central, o dedo 3 no lá e o dedo 5 no dó seguinte. Toque mi, lá, dó, si, lá, com os dedos 1, 3, 5, 4, 3, sem mover a mão de lugar. A cadência inteira mora dentro dessa posição. |
Ache o dó central antes de tudo: a branca imediatamente à esquerda do grupo de duas pretas, no meio do instrumento. Duas brancas à direita, ré e mi, e o polegar já está no lugar. O dó do dedo 5 é o próximo dó acima, uma oitava sobre o central.
A digitação vem da forma do acorde. Mi, lá e dó é lá menor na segunda inversão, com o intervalo de quarta entre as duas notas de baixo, e essa forma pede 1, 3, 5 na mão direita. O si fica entre o lá e o dó, então o dedo 4 cobre a nota sem o pulso andar um centímetro.
O desenho do tempo importa tanto quanto as notas. As três primeiras sobem em movimento contínuo, curtas e iguais. O si é um apoio de passagem, também curto. O lá final cai no tempo forte, dura o compasso inteiro e é ele que faz o ouvido reconhecer a chegada.
A cadência que fecha a primeira parte tem cinco notas e nenhuma tecla preta; o que falta nela é quantidade de repetições. |
“A dedilhação correta e a boa execução estão de tal modo ligadas que uma dificilmente se sustenta sem a outra.” > > > Carl Philipp Emanuel Bach, Ensaio sobre a Verdadeira Arte de Tocar Instrumentos de Teclado, 1753 |
O filho de Johann Sebastian Bach escreveu o tratado meio século antes de Beethoven datar o autógrafo, e a frase vale para este fecho: com o dedo 3 no lá, a mão chega ao si e volta sem procurar tecla. Com o dedo 4 no lá, o si torce o pulso e a última nota sai atrasada.
Passo 1: apoie os cinco dedos nas brancas de mi a dó e toque cada tecla uma vez, subindo e descendo, sem olhar para a mão.
Passo 2: toque só mi, lá, dó, dedos 1, 3 e 5, doze vezes seguidas, com os dedos 2 e 4 pousados nas teclas sem afundar.
Passo 3: acrescente o si e o lá, cadência completa, oito vezes, deixando o lá final durar o quádruplo das outras notas.
Passo 4: toque a cadência seis vezes com metrônomo a 60, parando a contagem só quando o lá terminar de soar.
O passo 3 é o filtro da lição. Se o lá final tem a mesma duração das notas da subida, a frase não fecha, e o ouvido fica esperando uma continuação que não vem. Conte a batida mentalmente e segure o lá por quatro tempos inteiros antes de emendar o passo 4.
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II O Erro que Trava
O retorno automático ao compasso 1
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O erro que trava é voltar ao primeiro compasso a cada tropeço: a abertura recebe dezenas de repetições por tarde, o fecho recebe duas, e a mão termina sabendo o começo de cor enquanto apenas visita o final. A conta é implacável: cada recomeço dá às primeiras notas uma passada extra. |
O mecanismo não tem mistério. A mão aprende o trecho que repete, na proporção em que repete. Quem estuda quarenta minutos e volta ao compasso 1 a cada erro entrega trinta repetições aos oito primeiros compassos e três ao fecho. Em duas semanas, a diferença entre as duas metades da peça vira intransponível, e o estudante conclui que o final é difícil demais.
Existe um segundo estrago, mais silencioso. Cada erro seguido de interrupção também grava a interrupção. A mão memoriza a parada no mesmo ponto, e o trecho passa a ter um buraco fixo: o dedo chega ali e trava por hábito, mesmo quando o aluno já sabe as notas.
A correção cabe numa regra de três compassos. Quando errar, volte ao compasso anterior ao erro, toque ele, o compasso do erro e o seguinte, e repita o bloco até sair limpo três vezes seguidas. Só então emende o trecho maior. O compasso 1 fica de fora do exercício, porque ele já recebeu repetição suficiente para a semana inteira.
Existe um caminho com nome próprio para o resto da peça: o encadeamento retrógrado, chamado em inglês de back chaining, que monta a música do último compasso para trás. Toque o compasso final até ficar seguro, depois o penúltimo mais o último, depois os três últimos. O trecho final acumula mais repetições que qualquer outro, e a peça passa a terminar melhor do que começa.
A medição cabe num papel ao lado do teclado. Divida a folha em dois campos, começo e fecho, e faça um risco a cada repetição de cada trecho. Enquanto o campo do começo tiver mais que o dobro de riscos, a rotina segue alimentando a parte que já está pronta.
A pressa também empurra o dedo de volta ao compasso 1: tocar do começo dá a sensação de música inteira, e corrigir três compassos soltos parece trabalho de oficina. A sessão soa bem e o fecho continua onde estava no mês passado.
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