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Um dedo sobe, o acorde muda de cor
O fá sustenido é a preta entre o fá e o sol, e ele vira o ré menor em ré maior sem tirar as outras duas notas do lugar.
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Ré maior: ré, fá sustenido e lá com 1, 3 e 5
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Eárias prelúdios em tom menor do Cravo Bem Temperado, de Johann Sebastian Bach, terminam num acorde maior. O ouvinte atravessa a peça inteira num clima fechado e o último acorde chega claro, como se alguém abrisse uma janela na última linha.
O recurso é bem mais velho que Bach e tem nome próprio desde o século XVI: terça de Picardia. Compositores do Renascimento e do Barroco fechavam peças sombrias com um acorde final maior, e a mudança que produz esse efeito é a menor possível dentro de um acorde.
A mecânica cabe num dedo só. Um acorde de três notas tem a nota de baixo, a do meio e a de cima, e quem decide se ele soa fechado ou aberto é exclusivamente a do meio. As outras duas ficam onde estão, sem participar da decisão.
A distância dessa mudança é meio tom, o menor intervalo que existe no teclado. Subir a nota do meio em meio tom converte um acorde menor no acorde maior de mesmo nome, e descer meio tom faz o caminho de volta.
O acorde de hoje é o ré. Ré menor tem ré embaixo, fá no meio e lá em cima. Sobe o fá meio tom, ele vira fá sustenido, e o que sai é ré maior, com o ré e o lá parados exatamente onde estavam antes.
Meio tom acima do fá não é o sol. É a tecla que fica entre os dois, e essa tecla é preta. As pretas existem justamente para preencher os vãos que as brancas deixam, e nenhum vão entre uma branca e sua vizinha imediata é maior que meio tom quando existe uma preta no meio.
O corpo aprende a diferença antes da cabeça. A tecla preta é mais estreita, mais alta e fica mais para trás no teclado, e o dedo que a toca precisa de uma posição diferente da que usa numa branca larga e rasa.
É aí que a lição de hoje mora. Os dez minutos de agora começam pela montagem das duas versões do acorde de ré com a mão direita, uma tocando o fá branco e a outra o fá sustenido preto, e pela troca entre elas com um único dedo se mexendo.
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I A Lição de Hoje
O médio sobe pra preta
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As teclas de hoje: ré maior com o médio na preta.
Antes do metrônomo, monte as duas posições.Comece pelo acorde menor, que só tem tecla branca. Ache o ré logo acima do dó central, ponha o polegar direito nele, o médio no fá e o mínimo no lá: são os dedos 1, 3 e 5 na tríade fundamental de ré menor.
Toque as três notas juntas e segure por uns três segundos. Escute o acorde inteiro parado, sem pressa de trocar nada, porque a próxima etapa depende de você reconhecer esse som de saída.
Agora localize a preta que interessa, sem tocar em nada. Entre o fá e o sol existe uma tecla preta, e ela é o fá sustenido. Deslize o médio devagar do fá até encostar nela, só para o dedo medir a distância.
O passo seguinte é o coração da lição. Mantenha o polegar no ré e o mínimo no lá exatamente onde estão, com os dois dedos apoiados sem sair do lugar, e suba apenas o médio para a preta do fá sustenido.
Toque as três notas juntas de novo. Ré, fá sustenido, lá: o acorde de ré maior, montado com o mesmo polegar, o mesmo mínimo e um único dedo trocado de tecla.
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Duas notas ficam paradas e uma sobe meio tom: o acorde muda de cor inteiro sem que a mão mude de posição.
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Faça a troca dez vezes, alternando. Ré menor, ré maior, ré menor, ré maior, com uma pausa de dois segundos entre um acorde e o outro, e o polegar e o mínimo colados nas teclas durante a série toda.
Preste atenção no que a orelha faz na troca. O ré menor soa mais recolhido e o ré maior soa mais aberto, e a única diferença entre os dois está na nota do meio, na altura do seu dedo médio.
Agora observe a mão de cima enquanto toca. Se o polegar ou o mínimo escorregarem junto com o médio, o exercício perde a graça: eles são a referência fixa que faz a mudança do meio ficar audível.
Repita a série mais dez vezes, agora sem pausa entre os acordes. Ré menor e ré maior colados, um atrás do outro, e o médio subindo e descendo como se fosse um interruptor entre as duas versões.
Feche a primeira parte com uma troca lenta e um teste de memória. Toque o ré maior, tire a mão inteira do teclado, conte até cinco e volte a montar o acorde sem olhar para a preta antes de pousar o dedo.
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II O Erro que Trava
O dedo escorrega pra ponta da tecla
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Na quinta ou sexta troca o médio começa a escapar da preta. Ele toca a preta e a branca ao mesmo tempo, ou desliza pela beirada e cai no fá, e o acorde sai sujo sem que a mão perceba o que aconteceu.
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A causa é geométrica e não tem nada de misterioso. A tecla preta é mais estreita e mais alta que a branca, e o ponto em que ela é firme fica no fundo do teclado, longe da borda onde a mão descansa naturalmente.
O dedo que ataca a preta perto da ponta apoia numa superfície inclinada. A preta tem um chanfro na extremidade da frente, e o dedo que encosta ali escorrega para baixo, na direção das brancas vizinhas, em vez de afundar reto.
Existe um teste de vinte segundos que revela o tamanho do desvio. Toque o ré maior oito vezes olhando só para o médio e observe onde a ponta dele pousa: se o dedo encosta na metade da frente da preta, o escorregão já está contratado.
A primeira correção é de profundidade. O médio recua até o fundo da tecla preta, quase encostando na madeira do teclado atrás dela, e ataca a preta na parte mais larga e mais estável do caminho.
A segunda correção é de mão inteira. Quando o médio recua, a mão inteira avança um pouco para dentro do teclado, e o polegar e o mínimo passam a tocar as brancas mais para trás também, sem beliscar a borda.
A terceira correção é de curvatura. O dedo médio fica mais arqueado que os outros dois, porque a preta é mais alta e ele precisa descer sobre ela, e um dedo esticado bate de lado na preta em vez de bater por cima.
Carl Philipp Emanuel Bach deixou escrito, num tratado que virou manual de teclado por gerações, o peso que a posição do dedo tem no resultado.
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“Sem a dedilhação correta, nada de bom se pode tocar.”
Carl Philipp Emanuel Bach, Ensaio sobre a Verdadeira Arte de Tocar Instrumentos de Teclado, 1753
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Treine a posição nova com um exercício de dedo isolado. Sem tocar o acorde inteiro, ponha só o médio no fundo do fá sustenido e afunde a tecla vinte vezes seguidas, devagar, olhando para o ponto de contato.
O isolamento resolve o que a repetição do acorde não resolve. Com as três notas soando juntas, o ouvido perdoa o dedo torto porque o acorde ainda sai; com a preta sozinha, qualquer escorregão vira um som errado, e o erro fica impossível de ignorar.
Um detalhe fecha o assunto. A troca entre o fá e o fá sustenido é para frente e para trás, nunca para o lado: o médio sobe pela diagonal, do fundo do fá para o fundo da preta, e volta pelo mesmo caminho, sem passeio pela borda das teclas.
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